By Olívia

Categoria Metade de Mim

 
 

Sweetest goodbye.

     Eu não gosto de aeroportos, por motivos óbvios. Durante todo o percurso da minha casa até lá, as casas e parques pelos quais passamos pareceram estranhamente interessantes e atraentes. O trânsito estava muito mais livre que o normal pra um sábado à tarde, acabamos chegando com duas horas de antecedência.
     Sorte que as lojas são interessantes. uma boa livraria, alguns quiosques de óculos e CDs, brechós com artesanato da terra e uma cafeteria. Eu não posso tomar café por casa da alergia, mas me enchi de pão de queijo. Gostei de uma blusinha de croché com a bandeira do estado, de uns brincos espalhafatosos e chinelinhos com mosaico. Fiz uma lista mental de quais livros novos deveriam habitar minha estante em breve. Fiquei revisando tudo isso enquanto pude.
     Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, eu teria feito pra não ter que encarar o Rafael com suas malas enormes nas mãos. Só Deus sabe o quanto tudo aquilo me doía. Maldita idéia daquele loiro estúpido, ir embora, tanto antes quanto agora!
     A caminho do check-in, ele soluçou. Ah, ainda mais isso? Eu não sou de ferro... Me controlei ao máximo quando olhei praqueles olhos verdes e molhados.
     - Por que isso, Rafa?! Ainda faltam duas horas pra você me prometer que vai voltar o mais rápido possível!
     - Me desculpa, Olívia. - Ele enxugou o rosto. - Você devia me odiar, né?
     Eu não podia acreditar no que tava ouvindo. Beijei-o.
     - Não repita mais isso, ok? Eu te adoro e tô feliz assim!
     - Você é minha alegria, Maria Olívia, e eu te amo muito.
     Não falamos mais nada durante a espera pra o check-in. Fomos pra a praça de alimentação. Ele me comprou uns sanduíches do McDonald's e comemos em silêncio. Aquilo era horrível. Eu sabia que ele estava pensando e lembrando as mesmas coisas que eu.
     "Vôo 8002 para Buenos Ares, com escalas em Salvador e Rio de Janeiro, embarque imediato." Tava na hora. Ele levantou, pegou minha mão e fomos juntos pra o embarque.
     Um abraço. Um beijo.
     - Vou voltar assim que tiver um tempo. Eu te amo.
     Queria ter dito que eu também. Queria ter pedido pra ele ficar. Queria não ter respirado fundo e me controlado tanto. Queria não ter chorado apenas quando vi a silhueta do Rafael passando pelo detector de metais.
     Mas nem sempre querer é poder.


→ 18:23:39
 

 
 

Sobre você.

     Acho mesmo que fui muito injusta. Só falei dos seus olhos verdes, do sorriso torto alinhado e de como a lembrança deles me machucava. Disse apenas que tinha ido embora, sendo muito egoísta ou muito burro, e que depois tinha voltado como se nada tivesse acontecido. Não sei se escrevi isso, mas talvez todos tenham pensado que você foi covarde também. Uma ofensa.
     Se eu fose honesta de verdade, teria comentado como você me fazia rir. Teria dito que a maior parte dos meus amigos te adora e que você foi o único namorado que a Sofia e o Augusto aprovaram logo de cara. No mínimo. Mas só isso não compensa!
     Eu já deveria ter falado que você não se importou com o meu estado depressivo-autodestrutivo quando me conheceu e não se afastou de mim, nem nessa época nem quando todos as pessoas em que você confiava imploravam que você se afastasse. Nunca contei que, mesmo antes de ser meu namorado, foi você quem me levou desmaiada até a enfermaria quando uma barra de ferro caiu na minha cabeça, quem me ligou pra saber porque eu não ia há uma semana pra a escola ou quem, pela primeira vez, me defendeu das garotas que insistiam em fofocar da minha vida e me deu meu chocolate preferido na Páscoa. Também não falei que você aprendeu a tocar violão só pra cantar "Último Romance" pra mim, que me deixava assistir desenhos horas seguidas e, quando eu adormecia no seu colo, me levava nos braços pra a cama se esforçando pra não me acordar. Não disse a ninguém que, quando seu pai foi transferido pra o lugar que você mais gostava no mundo, você brigou com quem precisou e ficou messes sem sua família pra continuar na minha cidade.
     Talvez porque não saibam disso, as pessoas achem que eu sou uma boba de confiar de olhos vendados. Mas que alternativa eu tinha? Como eu poderia não deixar de lado o orgulho por alguém que deixou muito mais que isso por mim?

 ♦ ♦ ♦

     Você me faz sentir muito mais que uma simples observadora da minha própria vida. Obrigada.


→ 20:06:53
 

 
 

Secrets.

     - Você ficou com ele, não ficou? - O Rafa cutucou minha barriga e eu me esquivei das cócegas. - Hein, Maria Olívia?
     Eu olhava pra o mar, balançando pra frente e pra trás. Mordi o lábio inferior. - É. E daí?
     - Nossa! - Ele riu. - Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa pra você fica daquele jeito no shopping! Agora, eu entendo o Bernardo. Acho que a vontade que ele tinha de esmagar o meu crânio é recíproca, finalmente.
     O Rafa riu alto.
     - Eu que quero esmagar seu crânio, idiota! - Pulei no seu pescoço e bati nele com a maior força possível. Ok, não durei muito tempo. Risos. - Acha que eu engoli aquela história de 'não dá pra explicar'? Você ainda me deve a verdade toda!
     A expressão dele ficou séria, considerando. Soltou meu braço e me ajudou a levantar na areia.
     - Olívia... - Suspiro. - Você lembra de quando discutiu sério com seu pai?
     - Sim. - Infelizmente, diga-se de passagem.
     - Lembra que ligou pra mim quando tudo terminou?
     - E graças a Deus você estava no caminho pra me buscar!
     - Não estava indo pra a sua casa. - Ele respirou fundo. - Eu já estava lá.
     A ficha só caiu quando o Rafa continuou a explicação. - O porteiro me conhecia, subi sem avisar. Eu ouvi toda a discussão do lado de fora. Quando você me ligou, eu tava no hall. Voltei pra o carro, dei umas voltas pra esfriar a cabeça e... fui te pegar.
     Aquilo tudo pesava como uma pedra no meu estômago. As imagens eram borrões, mas a lembrança dos gritos ainda era bem clara. Meu pai tinha dito, fora um monte de outras coisas horríveis, que o Rafael era um filho da puta e tava destruindo a minha família querendo me levar pra longe, que ele nunca ia entender o esforço que meus pais fizeram pra que eu tivesse tudo porque era um filhinho de papai que não sabia o que queria da vida, que eu nunca ia ser feliz com um cara que não conseguia estudar Português sozinho e... Ah, claro! Que o maior desgosto da vida dele seria me ver indo embora pra viver com alguém que nunca ia ser bom o suficiente pra mim.
     - Rafa... - Coloquei a mão no ombro dele. 
     - Ele não estava errado, Oli.
     - Bobagem, Rafael. Eu iria com você de qualquer jeito!
     - É, eu sei. Por isso eu fui embora. Achei que, sem mim, você ia desencanar como sempre e seguir com sua vida normal. Você merece tudo que tiver de melhor, e eu não tenho certeza se sou o melhor pra você.
     - Você sabe que é, senão não teria voltado.
     Ele me encarou, finalmente, e me deu um abraço. - Nem sempre a gente faz as coisas mais sensatas.
     Sorri. - Eu amo você também.


→ 15:24:21
 

 
 

Taking back time.

     Sábado, 17:32.
     Seu Marco me olhava como se eu fosse uma criminosa. - Não acredito! Depois de tudo, eu não acredito que você vai sair com ele.
     - Pai...
     Seu rosto tinha um tom avermelhado. - Não, eu não vou deixar você fazer a mesma besteira duas vezes!
     - Olha aqui, pai, se a Oli quer ir, ela vai. - Sofia entrou na sala. Providencialmente, devo dizer. - Esse problema é dela, não seu!, e eu acho mesmo que ela deve ir resolver.
     - Já que eu não mando em mais nada nessa casa mesmo... - Meu pai parecia furioso.
     Antes de fechar a porta, vi o sorriso da minha irmã mais velha acompanhado de uma piscadinha de 'boa sorte'.
 
     Sábado, 18:47.
     - Eu não consigo entender por que você fez aquilo. - O vento frio da orla fazia meu cabelo chicotear o meu rosto. A sensação não era boa, mas era melhor que encarar o Rafael. Com a sanidade recuperada, meu sentimento era um misto de mágoa e vergonha pelo escândalo da sexta-feira.
     Ele também evitava me olhar e, por isso, eu não posso dizer o que ele sentia. - Pensei que você tivesse falado com o Vinícius.
     - É. Mas não entendi. - Pelo menos eu conseguia suspirar sem que o meu corpo parecesse se desfazer, como antes. - O que eu ouvi não justifica tudo que eu passei nesses meses.
     - Eu... só atrapalho a sua vida. - Um suspiro.
     Olhei pra ele com o rosto mais firme que consegui. - Acha que eu vou acreditar nisso?
     Um sorriso sem graça. - Não. Eu sei que você é teimosa.
     - Se era pra não me contar tudo, por que voltou? - A raiva começava a tomar conta de mim. Que injusto!
     O Rafa segurou meu rosto, me beijou o topo da cabeça. - Eu já disse. Não consigo ficar longe de você. Se eu fosse altruísta de verdade, teria mantido a distância. Era o mais sensato, só que não era o melhor.
     - Você é um covarde.
     Ele riu. - Eu sei disso também. Você é que não sabe nada... - Por um segundo, o rosto dele ficou amargurado. Depois, o sorriso retornou. - Eu vou amar você pra sempre, Maria Olívia, mesmo que você me odeie. Só acho que você merece muito mais que um alguém que só traz confusão pra a sua vida.
 
     Segunda, 14:34.
     Phone.
     - By the way, I'm very excited.
     - Why, Bia?
     - Because your Prince-Charming-of-my-dreams came back, so now me and Carlie are waiting for your 'happy-ever-after' moment!
     - He ain't Prince Charming.
     - Oh! Ok, you're right. He's much better, because he's real!


→ 19:19:52
 

 
 

Sunshine.

     Se eu tinha dúvidas de que a felicidade podia voltar pra a minha vida, ontem elas se foram completamente.

• • •

     Enquanto Helena reclamava das nossas férias de duas semanas só terem começado agora, eu lia A Menina Que Roubava Livros para que a última hora do expediente passasse. De repente, ela perguntou algo que me distraiu.
     - O que você faria se visse o Rafa de novo, Oli?
     Levantei os olhos do livro e respondi, seca. - Não vou ver o Rafael de novo.
     Ela continuou, educada como sempre, mas um pouco agitada. - Você não voltou a falar com ele?
     - Se ele realmente se importasse comigo, Helena, não teria ido embora. Não tenho mais o que falar com ele. - Aquilo acabava com o assunto.
     - Eu acho mesmo que ele se importava.
     Eu não entendia sua insistência. - Bem, nunca vamos saber, né?
     Helena encarava a parede de vidro atrás de mim como se tivesse visto um fantasma. - Oli, não me leva a mal, mas... Acho que 'nunca' não é a palavra certa.
     A maçaneta fez barulho.
     Eu tinha rasgado todas as fotos, mas nunca consegui apagar de verdade a lembrança. Aqueles olhos verdes tinham me perseguido incansavelmente, por mais que eu tentasse esquecer deles. Quando me dei conta, já tinha largado Liesel Meminger e estava de pé.
     Eu tive certeza de que ia explodir. Meu coração ia fugir a qualquer momento. A respiração, irregular. Tudo em mim tremia, inclusive o muro que eu contruí cuidadosamente nas semanas que se passaram desde abril.
     Não podia ser verdade.
     E então o chão sumiu, as luzes apagaram.

• • •

     O piso da sala estava muito frio, as imagens ainda embaçadas. Dois rostos assustados olhavam pra mim.
     Quando abri os olhos, Helena sentou e colocou a mão no coração e respirou fundo. - Ai, cara, que susto! Achei que ela tinha tido um ataque cardíaco.
     - Olívia? - Ouvi a preocupação meio sem jeito, enquanto ele me ajudava a sentar. - Você tá... tá bem?
     Se eu estava bem? Meu Deus, eu me sentia viva de verdade como há muito não conseguia; eu respirava sem pressão no peito, o sangue não parecia mais congelado, não havia nós na garganta. Estava perfetamente bem. Nossa, como eu estava! Ainda tentei falar, mas as palavras eram ininteligíveis. Não ia adiantar, então fiz a única coisa que cada célula do meu corpo pedia: abracei o Rafael com toda a força que eu consegui.
     Ele me abraçou de volta. Beijou meus cabelos. - Achei que você ia ficar melhor sem mim, mas eu precisava de você. Fui tão burro em pensar que... seria suportável ficar longe.
     Apertei um pouco mais o abraço, talvez pra que ele não fosse embora de novo. Não parecia que a confusão toda tinha acontecido, machucado tanto, enquanto ele me segurava. Me protegia.
     - Shhhh... Tá tudo certo, agora. Calma.
     Ele tinha razão. Tudo estava certo, ali. Nunca devia ter mudado.


→ 12:00:45
 



Maria Olívia.

Tenho crises de insônia, preguiça de arrumar o quarto e matéria acumulada pra estudar. Escovo os dentes e tomo banho todos os dias, já disseram que eu cheiro a baunilha. Costumava colecionar conchas, mas hoje prefiro os livros. Tenho plena consciência de que deveria assistir às notícias ao invés de desenhos animados. Mais cedo ou mais tarde, eu vou bagunçar tudo. Não se preocupe, sempre acabo dando um jeito! A lição mais importante que aprendi até hoje foi também a mais difícil de todas: não se pode confiar em ninguém.

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