By Olívia

Categoria Egocentrismo

 
 

Deceptive.

     É muito bom confiar nas pessoas que estão a sua volta. É ótimo se sentir querido, importante e essencial em um lugar onde você ama estar. É maravilhoso poder olhar pra trás e ver que sua decisão de acreditar no melhor de cada um foi correta e proveitosa. Pena que comigo não fosse assim.

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     Havia horas eu estava esparramada na cama, remoendo melancolicamente todo o azar que tinha de ser eu mesma, como qualquer transtornado-bipolar-em-fase-baixa normal.
     Meu namorado morava a infelizes dois mil quilômetros de distância e não podia perder aulas pra me ver antes do meu aniversário. Meu melhor amigo se recusava a me dirigir a palavra por se achar a pessoa certa para o meu futuro e também estava bastante longe. Meus dois amigos-pra-caralh* da cidade eram um hiperativo e uma cética, que representavam 50% do contingente terceranista que me diriga a palavra na escola. Diga-se de passagem, nenhum deles estava na minha sala.
     Sim, a sala do verão, que eu imaginava ser um grande progresso na minha tentativa de socialização. Aquela do nerd simpático e da garota com probabilidades enormes de ser minha amiga. Aquela em que, depois de algumas semanas com oportunidades frustradas, ninguém falava comigo mais do que o necessário ou sequer percebiam que eu existia ali, na terceira cadeira da última fileira. Aquela onde as fofoqueiras de plantão insistiam em se agrupar na minha frente e impedir que eu assistisse as aulas ou ouvisse o que o professor dizia mais claramente que as novidades da semana. Aquela que, fatalmente, virou um inferno.
     É muito triste não poder confiar nas pessoas que estão a sua volta. É horrível não se sentir querido, importante e essencial em um lugar onde você já detesta estar. É deprimente olhar pra trás e ver que sua decisão de acreditar no melhor de cada um foi simplesmente estúpida e sem sentido. Graças aos céus, eu descobri cedo o suficiente que se esparramar na cama não resolve problema de ninguém e as coisas não são mais assim.

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     Se prepare, Caio, porque eu vou te perturbar muito na NOSSA turma. Muahaha.


→ 22:07:31
 

 
 

Oli goes shopping.

     Ainda tentei dar meia-volta quando vi o protótipo de Barbie real se aproximando com quatrocentas sacolas, mas era tarde demais. Infelizmente, estávamos com a companhia errada na hora errada. Pelo menos pra mim. Antes que eu pudesse pensar num jeito de escapar, ela teve um piti bem feminino.
     - Ah, Olí!!! Meu Deus, há quanto tempo eu não te vejo! Não sabia que você gostava de fazer compras!!! - E me deu um daqueles abraços em que as garotas ficam uma hora se balançando de um lado pra o outro.
     - Ehm... Oi, Nenê. - Eu estava meio sem jeito, mas nem de longe por causa do abraço. - Não, não gosto de compras. Eu vim no cinema.
     A troca de olhares quieta e nem um pouco amistosa que Inês não percebia chegava a ser pesada pra mim.
     Mas não, ela não podia simplesmente ficar calada! - Rafaeeeel, você voltou?!
     Dois beijinhos educados. - Bem, Inês, acho que não sou só eu que não consigo ficar longe daqui muito tempo. - E virou pra encarar o cara moreno que contrastava com o cabelo absurdamente claro dela. - Tudo bem, Bernardo?
     - Então você finalmente decidiu sair de casa e agir como alguém normal, Liv? - O Bérn simplesmente ignorou a mão do Rafa e se virou pra mim. Seu rosto, ilegível.
     - Hm... Oi, Bérn. - Eu mal conseguia olhar pra ele.
     - Como você ainda pode sair com esse cara? - Ele falou num tom sério, que eu não consegui definir como raiva, dor ou mágoa.
     - A gente não tá jun...
     - E isso importa? Se eu fosse você, não conseguiria nem olhar pra ele!
     O Rafa me puxou mais pra perto, colocando a mão no meu ombro, e a Inês interveio.
     - Eu acho que o Bernardo e eu ainda temos muito o que fazer! - E pegou a mão dele, com um dos sorrisos sociais de sempre. - Vamos, Bê?
     Ele balançou a cabeça de um jeito decepcionado e virou pra acompanhá-la enquanto o Rafa me levava na direção oposta.

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Jut... SO good!


→ 18:42:19
 

 
 

Waiting.

     Eu deveria escrever minhas observações de mundo aqui. Falar sobre o quanto odeio as enchentes assassinas, o tratamento dado aos moradores de rua, a falta de educação e as matérias de jornal. Dizer como me dói a pobreza, o desrespeito, a corrupção. Talvez assim parecesse menos egoísta e transmitisse alguma idéia inteligente, fizesse do meu espaço útil. Mudasse o mundo, ou começasse.
     Pena que, agora, não consigo colocar pra fora nada melhor que histórias egocêntricas e ocas, porque elas são a única coisa que tem preenchido minha vida nos últimos meses. Acho que me tornei igualmente vazia. Eu vejo, mas não sinto.
     Todas as minhas energias estão voltadas para a espera. De uma novidade. De uma oportunidade. De um acontecimento significativo. De qualquer coisa que me tire da inércia. De que isso passe.


→ 18:39:53
 

 
 

Freakout.

     Eu tento segurar, juro que tento. Respiro fundo, cerro os punhos, tranco os dentes. Faço o possível pra controlar cada milímetro de músculo voluntário do meu corpo. Não dá.
     Hoje de manhã, no exame de sangue, eu simplesmente desmaiei. Não sem antes chorar a ponto de fazer a enfermeira perguntar se precisavam me segurar pra que ela conseguisse fazer o exame. Você pode até dar um desconto pela hemofobia.
     Há uma semana, num passeio de barco, eu surtei por ter que atravessar uma ponte metálica. Pior: o autocontrole ainda serviu pra metade do caminho. Tiveram que chamar o salva-vidas pra tirar uma criatura que lembrava muito o Tarso, de Caminho das Índias, tremendo enquanto atrapalhava a passagem das outras pessoas.
     A 'garota mais forte que alguém já conheceu' agora é vulnerável. Mais do que o normal. Acho que ela anda com medo constante de muito mais do que surpresas ruins.


→ 14:33:02
 

 
 

Incoherence.

     Texto 05: Respeito aos estudantes.
    
Tinha terminado a questão nove, esse era o enunciado da décima.
     Enquanto o Ministério da Educação tenta retificar e esconder constantemente todos os defeitos do novo vestibular, os alunos preocupam-se em ajustar seus estudos à futura avaliação. Mas o problema não é apenas o formato da prova.
    
Veio aquela sensação de déjà-vu; eu estava certa de que tinha lido aquela revista, jornal, ou qualquer coisa do tipo.
     Dúvidas sobre que faculdades adotarão o sistema ainda este ano, quais delas farão ou não uma segunda fase, quais serão os critérios para o alcance das vagas e que assuntos serão cobrados ainda incomodam e atrapalham a preparação dos candidatos.
    
Bingo! Eu ia terminar de rever o texto só por desencargio de consciência.
     Nós, estudantes, esperamos ao menos que as decisões quanto às mudanças sejam tomadas o mais depressa possível, já que não houve respeito para conosco quando um modelo de seleção tão falho foi posto em vigor.
     Aí, a surpresa. Ao final, um Olívia Di Carli, 3º ano A.
     Qual é?! A minha redação estava na prova e eu sequer percebi que eu tinha escrito aquilo! Querem saber da melhor parte, então? Eu errei a questão de interpretação do meu próprio texto.


→ 07:58:19
 



Maria Olívia.

Tenho crises de insônia, preguiça de arrumar o quarto e matéria acumulada pra estudar. Escovo os dentes e tomo banho todos os dias, já disseram que eu cheiro a baunilha. Costumava colecionar conchas, mas hoje prefiro os livros. Tenho plena consciência de que deveria assistir às notícias ao invés de desenhos animados. Mais cedo ou mais tarde, eu vou bagunçar tudo. Não se preocupe, sempre acabo dando um jeito! A lição mais importante que aprendi até hoje foi também a mais difícil de todas: não se pode confiar em ninguém.

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