By Olívia

Categoria Impressões

 
 

Religous thriller.

     Na boa, eu não curto filmes de terror. Não só porque a falta de criatividade chega a machucar ou porque os rostos bonitinhos dos monstros e serial killers ficam pairando na minha mente, principalmente depois das 23hrs, mas também porque, se eu quisesse uma aula de moral e bons costumes, eu ia diretinho pra a igreja.
     Cara, eu tô falando sério. Quem já assistiu Jason 1, 2, 3, 4, n! entende o que eu tô tentando dizer. Esses filmes de massacre sempre começam com um grupo de jovens que vão pra uma mata escura no meio da noite, fazer não-sei-o-quê. Às vezes até aparece até aquele mais saidinho que leva a erva e o fogo! Quando eles chegam no 'point', vários casais se afastam e vão pra não-sei-onde. É aí que o Jason chega e sai matando todo mundo.
     Ah, não, não todo mundo. Ia esquecendo que tem sempre aquela mocinha virgem, pura, que foi pra a festa só pra brincar com os amiguinhos, e o cara que gosta dela desde a primeira série, mas nunca foi notado e só quer o bem dela. Apenas essas duas criaturas de coração puro e moral inegável são capazes de acabar com o malvadão do Jason e salvar quem ainda (porventura) estivesse vivo.
     Pra mim, Jason é criação de um religioso bem espertinho. Qual foi?! A mensagem é bem clara: Não dê antes da hora, senão o Jason vai te pegar.


→ 19:59:31
 

 
 

Hard work.

     Sempre achei lindo ser professor. Não, nenhuma relação com todas as homenagens e coisas legais que os alunos do meu pai fizeram pra ele ou com o fato das pessoas mais inteligentes e interessantes que eu conheci ensinarem Línguas, Literatura ou História. Eu poderia muito bem achar lindíssima a Medicina também só pelas conversas da dona Lígia, mas seria realmente complicado pra uma hemofóbica almejar a sala de cirurgia. Melhor mesmo a sala de aula: tem todo o glamour de ser mentor, educador, guia. De ter pessoas te ouvindo e saber que muito provavelmete você está contribuindo para a formação moral e mental delas.
     Mas na prática, cá pra nós, ô coisinha difícil!
     Eu estava esperando a criaturinha há meia hora. A mãe dele, um amor de pessoa, já tinha me oferecido bolo, guaraná, biscoito, suquinho, fruta... Recusei, tinha acabado de almoçar (porque sim, professores iniciantes geralmente almoçam depois das quatro).
     Quinze minutos depois, me entra na sala já bem arrumada aquele protótipo de gente. Ninguém nunca diria que tinha 15 anos, pequeno como era, nem que era malandro que só ele! Fazia cara de anjo enquanto a mãe se retirava.
     - Tá bom, Júlio, vamos começ...
     - Professora, calma. - Olhou pros lados, checando se a mãe já não estava mais lá mesmo. - Temos que conversar antes, sabe, um assunto muito sério.
     Tirou alguma coisa do bolso, colocou na mesa e arrastou pra mim. Nessas horas, lembrava muito o pinguim-líder de Madagascar.
     - A senhorita tem que me prometer que não vai comentar com a minha mãe sobre as respostas da minha prova. - E descobriu a nota de cinquenta. Oh, my. Eu mereço. - É uma troca.
     - Olha, Júlio, não quero o dinheiro.
     - Mas minha mãe não pode saber o que e...
     Olhei pra ele séria. Qual é, eu tinha ou não que ganhar a confiança do meu aluno? - Não vou contar, mas não quero o dinheiro. Vamos ver sua prova e revisar o que foi mais difícil, sim?
     Meio receoso, ele me entregou as quatro folhas soltas e amassadas.

     O que foi a Festa do Chá de Boston?
     R: Uns cara chamaram uns soldados pra uma reive e no meio da festa um engraçadinho colocou laxante no chá com Smirnoff no outro, aí ele foi pra o banheiro e passou o dia lá por isso ficou conhecido como a festa do chá de Boston. [sic]
 
     Ok. Percebi que devia ter aceito o dinheiro.


→ 22:49:26
 

 
 

Girlish.

     A escola não era mais um purgatório; hoje, conseguiu a classificação de inferno. Desde que eu pus os pés na instituição maldita, às 06:37 da manhã, as coisas andavam estranhas.
     Não que, normalmente, as meninas falem comigo, mas... Quando eu chegava, elas paravam de falar. Disfarçavam, olhavam pra os livros como se entendessem o que estava escrito neles, acotovelavam-se pedindo silêncio. Eu realmente não me sentia parte desse grupo há tempo, mas elas conseguiram me fazer sentir uma aberração.
     Levei um tempo pra entender o que raios tinha acontecido comigo naquela noite pra merecer recepções tão calorosas. Melhor dizendo, o que elas achavam que ia acontecer.
     - Eu sei que ele chega domingo. - Inês cochichou com alguém sem perceber que eu estava perto o suficiente. - Só não sei a hora do vôo.
     As novas amigas fizeram todos os sinais da forma mais discreta possível e, como sempre, ela nem percebeu. Há um bom tempo, aliás, era como se ela tivesse esquecido inclusive a minha existência. Tão clássico dela.
     - Posso tentar ligar pra a casa dele e... - Fernanda não resistiu e fez sinal pra mim.
     - Não precisa de tudo isso. - Eu falei, me controlando ao máximo pra não sorrir. - Ele falou que chega às três da manhã, num vôo da TAM. Depois eu te dou o número, Nenê.
     E saí.
     Acho que nenhuma delas nunca vai me perdoar por ser a melhor amiga do Bernardo.


→ 20:52:03
 

 
 

Bolstering.

     - Pô, gatinha, tu não saiu em nenhuma foto!
     A biblioteca estava vazia, o que deu ao Caio e a mim a chance de fazer besteiras na internet sem que a mulher chata do balcão viesse reclamar. Como de costume, ele fuçava todos os orkuts possíveis atrás de fotos dele/dos amigos.

     - Ah, eu tirei com a minha câmera.
     - Claro, claro. Quantas mesmo? Cinco?

     Eu refiz mentalmente a conta. - Seis. Duas contigo, duas com Clara, uma com Gustavo e outra com Alberto.

     Caio me olhou meio descrente antes de revirar os olhos. Já não me incomodava mais quando ele fazia isso e, eu sei, ele também não se aborrecia muito com a minha autoexclusão. Apesar disso, tentava.

     -Tem certeza que tu não já colocou na cabeça que o povo não presta? - Ele não olhava pra mim. Caio só era tímido nas conversas sérias. - Digo... Será que tu não bloqueia todo mundo por preconceito?
     Terminei de engolir o biscoito que eu tinha enfiado na boca. - É, já considerei essa hipótese. E não, não bloqueio todo mundo. Se fosse assim, eu não teria ficado amiga do Gus esse ano e nem teria dado chance do Beto falar comigo.

     Ele olhou pra mim, meio desapontado com o argumento. - Tá, tem razão. Só acho que tu devia tentar ser mais alegre.
     - Eu sou alegre. - respondi, meio sem fé no que eu mesma estava dizendo.
     - Só insiste em não demonstrar, né?

     - Olha, eu te dou um sorriso!
     Forcei o máximo que pude.

     - Não, Oliver. - Ele me deu um peteleco no nariz e suspirou. - É meio gay dizer isso, mas eu também sinto falta dele.
     Congelei.
     - Do que você tá falando?
     - Do Rafa. - Levantou da cadeira, fechando a página do orkut. - Eu sei que nem eu nem Clara nunca vamos ser pra você tudo que aquele loiro burro era, nem vamos amar você como ele ama.
     - Amava.
     - Ama. Tu sabe que ele só queria o melhor pra tua vida. Ainda quer. - Ele deu de ombros. - Ele foi meio egoísta mesmo, e burro como sempre!, mas tu ainda é o o que sustenta o mundo dele.
     Ele hesitou. Ouvi minha respiração pesada.
     - Quem sabe se tu desbloqueasse ele no msn e ligasse o celular...
     - Não continue. É inútil.
     - Tu gosta dele também, eu sei. E ficou tão burra quanto ele, com a piora de ser orgulhosa.
     E saiu.


→ 15:37:50
 

 
 

Conspiracy.

     Irritante. Não, mais que isso. Quase insuportável.
     Eu sinceramente não me chateava com o fato da Clara ter me deixado sozinha - ela também tem uma vida e precisa se divertir - ou do Caio estar sempre rodeado de pessoas que, no mínimo, já contaram alguma mentira sobre mim.
     O que incomodava mesmo era não ficar só. Eu sabia, tinha quase certeza, que o meu pai tinha dado alguma informação sobre o meu estado aos professores - não que eles não já tivessem reparado nisso, é claro. Onde quer que eu fosse, um dos responsáveis ia me observando com a intenção quase explícita de impedir que eu lesse Quando Nietzsche Chorou em paz.
     Como se isso já não parecesse suficientemente frustrante, eu surtei mais uma vez. Pelo menos, num relance de sorte em um dia tão azarado, era o cara mais legal da Seção G.
     - Pára de chorar, Oli.
     - Desculpa, Ivo.
     - Que é isso! Eu que tenho que pedir desculpas... - Ele parecia bem sincero e arrependido. - Eu só não fazia idéia de que era tão terrível assim ficar perto dos seus colegas de série.
     - Não é. - Falei, meio sem jeito por mentir.
     - Não tente me enganar. - Riu. - Todos os outros na seção já perceberam o quanto você é diferente dos outros alunos.
     - A questão não é bem diferença... É incompatibilidade. Os assuntos, as brincadeiras, os passeios... Nada deles tem a ver comigo, exceto as fofocas. - Eu ri também, mesmo sem achar graça.
     - Sabe, Oli... Você é meio gauche.
     - É o quê?!
     - Gauche. Me lembra a primeira fase de Carlos Drummond de Andrade.
     - Não importa o que ele fez nessa fase, professor. Eu vou com o senhor até a piscina só como agradecimento pela comparação.


→ 19:56:42
 



Maria Olívia.

Tenho crises de insônia, preguiça de arrumar o quarto e matéria acumulada pra estudar. Escovo os dentes e tomo banho todos os dias, já disseram que eu cheiro a baunilha. Costumava colecionar conchas, mas hoje prefiro os livros. Tenho plena consciência de que deveria assistir às notícias ao invés de desenhos animados. Mais cedo ou mais tarde, eu vou bagunçar tudo. Não se preocupe, sempre acabo dando um jeito! A lição mais importante que aprendi até hoje foi também a mais difícil de todas: não se pode confiar em ninguém.

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