By Olívia


 
 

Sobre você.

     Acho mesmo que fui muito injusta. Só falei dos seus olhos verdes, do sorriso torto alinhado e de como a lembrança deles me machucava. Disse apenas que tinha ido embora, sendo muito egoísta ou muito burro, e que depois tinha voltado como se nada tivesse acontecido. Não sei se escrevi isso, mas talvez todos tenham pensado que você foi covarde também. Uma ofensa.
     Se eu fose honesta de verdade, teria comentado como você me fazia rir. Teria dito que a maior parte dos meus amigos te adora e que você foi o único namorado que a Sofia e o Augusto aprovaram logo de cara. No mínimo. Mas só isso não compensa!
     Eu já deveria ter falado que você não se importou com o meu estado depressivo-autodestrutivo quando me conheceu e não se afastou de mim, nem nessa época nem quando todos as pessoas em que você confiava imploravam que você se afastasse. Nunca contei que, mesmo antes de ser meu namorado, foi você quem me levou desmaiada até a enfermaria quando uma barra de ferro caiu na minha cabeça, quem me ligou pra saber porque eu não ia há uma semana pra a escola ou quem, pela primeira vez, me defendeu das garotas que insistiam em fofocar da minha vida e me deu meu chocolate preferido na Páscoa. Também não falei que você aprendeu a tocar violão só pra cantar "Último Romance" pra mim, que me deixava assistir desenhos horas seguidas e, quando eu adormecia no seu colo, me levava nos braços pra a cama se esforçando pra não me acordar. Não disse a ninguém que, quando seu pai foi transferido pra o lugar que você mais gostava no mundo, você brigou com quem precisou e ficou messes sem sua família pra continuar na minha cidade.
     Talvez porque não saibam disso, as pessoas achem que eu sou uma boba de confiar de olhos vendados. Mas que alternativa eu tinha? Como eu poderia não deixar de lado o orgulho por alguém que deixou muito mais que isso por mim?

 ♦ ♦ ♦

     Você me faz sentir muito mais que uma simples observadora da minha própria vida. Obrigada.


→ 20:06:53 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Secrets.

     - Você ficou com ele, não ficou? - O Rafa cutucou minha barriga e eu me esquivei das cócegas. - Hein, Maria Olívia?
     Eu olhava pra o mar, balançando pra frente e pra trás. Mordi o lábio inferior. - É. E daí?
     - Nossa! - Ele riu. - Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa pra você fica daquele jeito no shopping! Agora, eu entendo o Bernardo. Acho que a vontade que ele tinha de esmagar o meu crânio é recíproca, finalmente.
     O Rafa riu alto.
     - Eu que quero esmagar seu crânio, idiota! - Pulei no seu pescoço e bati nele com a maior força possível. Ok, não durei muito tempo. Risos. - Acha que eu engoli aquela história de 'não dá pra explicar'? Você ainda me deve a verdade toda!
     A expressão dele ficou séria, considerando. Soltou meu braço e me ajudou a levantar na areia.
     - Olívia... - Suspiro. - Você lembra de quando discutiu sério com seu pai?
     - Sim. - Infelizmente, diga-se de passagem.
     - Lembra que ligou pra mim quando tudo terminou?
     - E graças a Deus você estava no caminho pra me buscar!
     - Não estava indo pra a sua casa. - Ele respirou fundo. - Eu já estava lá.
     A ficha só caiu quando o Rafa continuou a explicação. - O porteiro me conhecia, subi sem avisar. Eu ouvi toda a discussão do lado de fora. Quando você me ligou, eu tava no hall. Voltei pra o carro, dei umas voltas pra esfriar a cabeça e... fui te pegar.
     Aquilo tudo pesava como uma pedra no meu estômago. As imagens eram borrões, mas a lembrança dos gritos ainda era bem clara. Meu pai tinha dito, fora um monte de outras coisas horríveis, que o Rafael era um filho da puta e tava destruindo a minha família querendo me levar pra longe, que ele nunca ia entender o esforço que meus pais fizeram pra que eu tivesse tudo porque era um filhinho de papai que não sabia o que queria da vida, que eu nunca ia ser feliz com um cara que não conseguia estudar Português sozinho e... Ah, claro! Que o maior desgosto da vida dele seria me ver indo embora pra viver com alguém que nunca ia ser bom o suficiente pra mim.
     - Rafa... - Coloquei a mão no ombro dele. 
     - Ele não estava errado, Oli.
     - Bobagem, Rafael. Eu iria com você de qualquer jeito!
     - É, eu sei. Por isso eu fui embora. Achei que, sem mim, você ia desencanar como sempre e seguir com sua vida normal. Você merece tudo que tiver de melhor, e eu não tenho certeza se sou o melhor pra você.
     - Você sabe que é, senão não teria voltado.
     Ele me encarou, finalmente, e me deu um abraço. - Nem sempre a gente faz as coisas mais sensatas.
     Sorri. - Eu amo você também.


→ 15:24:21 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Oli goes shopping.

     Ainda tentei dar meia-volta quando vi o protótipo de Barbie real se aproximando com quatrocentas sacolas, mas era tarde demais. Infelizmente, estávamos com a companhia errada na hora errada. Pelo menos pra mim. Antes que eu pudesse pensar num jeito de escapar, ela teve um piti bem feminino.
     - Ah, Olí!!! Meu Deus, há quanto tempo eu não te vejo! Não sabia que você gostava de fazer compras!!! - E me deu um daqueles abraços em que as garotas ficam uma hora se balançando de um lado pra o outro.
     - Ehm... Oi, Nenê. - Eu estava meio sem jeito, mas nem de longe por causa do abraço. - Não, não gosto de compras. Eu vim no cinema.
     A troca de olhares quieta e nem um pouco amistosa que Inês não percebia chegava a ser pesada pra mim.
     Mas não, ela não podia simplesmente ficar calada! - Rafaeeeel, você voltou?!
     Dois beijinhos educados. - Bem, Inês, acho que não sou só eu que não consigo ficar longe daqui muito tempo. - E virou pra encarar o cara moreno que contrastava com o cabelo absurdamente claro dela. - Tudo bem, Bernardo?
     - Então você finalmente decidiu sair de casa e agir como alguém normal, Liv? - O Bérn simplesmente ignorou a mão do Rafa e se virou pra mim. Seu rosto, ilegível.
     - Hm... Oi, Bérn. - Eu mal conseguia olhar pra ele.
     - Como você ainda pode sair com esse cara? - Ele falou num tom sério, que eu não consegui definir como raiva, dor ou mágoa.
     - A gente não tá jun...
     - E isso importa? Se eu fosse você, não conseguiria nem olhar pra ele!
     O Rafa me puxou mais pra perto, colocando a mão no meu ombro, e a Inês interveio.
     - Eu acho que o Bernardo e eu ainda temos muito o que fazer! - E pegou a mão dele, com um dos sorrisos sociais de sempre. - Vamos, Bê?
     Ele balançou a cabeça de um jeito decepcionado e virou pra acompanhá-la enquanto o Rafa me levava na direção oposta.

• • •


Jut... SO good!


→ 18:42:19 na categoria: Egocentrismo
 

 
 

Taking back time.

     Sábado, 17:32.
     Seu Marco me olhava como se eu fosse uma criminosa. - Não acredito! Depois de tudo, eu não acredito que você vai sair com ele.
     - Pai...
     Seu rosto tinha um tom avermelhado. - Não, eu não vou deixar você fazer a mesma besteira duas vezes!
     - Olha aqui, pai, se a Oli quer ir, ela vai. - Sofia entrou na sala. Providencialmente, devo dizer. - Esse problema é dela, não seu!, e eu acho mesmo que ela deve ir resolver.
     - Já que eu não mando em mais nada nessa casa mesmo... - Meu pai parecia furioso.
     Antes de fechar a porta, vi o sorriso da minha irmã mais velha acompanhado de uma piscadinha de 'boa sorte'.
 
     Sábado, 18:47.
     - Eu não consigo entender por que você fez aquilo. - O vento frio da orla fazia meu cabelo chicotear o meu rosto. A sensação não era boa, mas era melhor que encarar o Rafael. Com a sanidade recuperada, meu sentimento era um misto de mágoa e vergonha pelo escândalo da sexta-feira.
     Ele também evitava me olhar e, por isso, eu não posso dizer o que ele sentia. - Pensei que você tivesse falado com o Vinícius.
     - É. Mas não entendi. - Pelo menos eu conseguia suspirar sem que o meu corpo parecesse se desfazer, como antes. - O que eu ouvi não justifica tudo que eu passei nesses meses.
     - Eu... só atrapalho a sua vida. - Um suspiro.
     Olhei pra ele com o rosto mais firme que consegui. - Acha que eu vou acreditar nisso?
     Um sorriso sem graça. - Não. Eu sei que você é teimosa.
     - Se era pra não me contar tudo, por que voltou? - A raiva começava a tomar conta de mim. Que injusto!
     O Rafa segurou meu rosto, me beijou o topo da cabeça. - Eu já disse. Não consigo ficar longe de você. Se eu fosse altruísta de verdade, teria mantido a distância. Era o mais sensato, só que não era o melhor.
     - Você é um covarde.
     Ele riu. - Eu sei disso também. Você é que não sabe nada... - Por um segundo, o rosto dele ficou amargurado. Depois, o sorriso retornou. - Eu vou amar você pra sempre, Maria Olívia, mesmo que você me odeie. Só acho que você merece muito mais que um alguém que só traz confusão pra a sua vida.
 
     Segunda, 14:34.
     Phone.
     - By the way, I'm very excited.
     - Why, Bia?
     - Because your Prince-Charming-of-my-dreams came back, so now me and Carlie are waiting for your 'happy-ever-after' moment!
     - He ain't Prince Charming.
     - Oh! Ok, you're right. He's much better, because he's real!


→ 19:19:52 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Sunshine.

     Se eu tinha dúvidas de que a felicidade podia voltar pra a minha vida, ontem elas se foram completamente.

• • •

     Enquanto Helena reclamava das nossas férias de duas semanas só terem começado agora, eu lia A Menina Que Roubava Livros para que a última hora do expediente passasse. De repente, ela perguntou algo que me distraiu.
     - O que você faria se visse o Rafa de novo, Oli?
     Levantei os olhos do livro e respondi, seca. - Não vou ver o Rafael de novo.
     Ela continuou, educada como sempre, mas um pouco agitada. - Você não voltou a falar com ele?
     - Se ele realmente se importasse comigo, Helena, não teria ido embora. Não tenho mais o que falar com ele. - Aquilo acabava com o assunto.
     - Eu acho mesmo que ele se importava.
     Eu não entendia sua insistência. - Bem, nunca vamos saber, né?
     Helena encarava a parede de vidro atrás de mim como se tivesse visto um fantasma. - Oli, não me leva a mal, mas... Acho que 'nunca' não é a palavra certa.
     A maçaneta fez barulho.
     Eu tinha rasgado todas as fotos, mas nunca consegui apagar de verdade a lembrança. Aqueles olhos verdes tinham me perseguido incansavelmente, por mais que eu tentasse esquecer deles. Quando me dei conta, já tinha largado Liesel Meminger e estava de pé.
     Eu tive certeza de que ia explodir. Meu coração ia fugir a qualquer momento. A respiração, irregular. Tudo em mim tremia, inclusive o muro que eu contruí cuidadosamente nas semanas que se passaram desde abril.
     Não podia ser verdade.
     E então o chão sumiu, as luzes apagaram.

• • •

     O piso da sala estava muito frio, as imagens ainda embaçadas. Dois rostos assustados olhavam pra mim.
     Quando abri os olhos, Helena sentou e colocou a mão no coração e respirou fundo. - Ai, cara, que susto! Achei que ela tinha tido um ataque cardíaco.
     - Olívia? - Ouvi a preocupação meio sem jeito, enquanto ele me ajudava a sentar. - Você tá... tá bem?
     Se eu estava bem? Meu Deus, eu me sentia viva de verdade como há muito não conseguia; eu respirava sem pressão no peito, o sangue não parecia mais congelado, não havia nós na garganta. Estava perfetamente bem. Nossa, como eu estava! Ainda tentei falar, mas as palavras eram ininteligíveis. Não ia adiantar, então fiz a única coisa que cada célula do meu corpo pedia: abracei o Rafael com toda a força que eu consegui.
     Ele me abraçou de volta. Beijou meus cabelos. - Achei que você ia ficar melhor sem mim, mas eu precisava de você. Fui tão burro em pensar que... seria suportável ficar longe.
     Apertei um pouco mais o abraço, talvez pra que ele não fosse embora de novo. Não parecia que a confusão toda tinha acontecido, machucado tanto, enquanto ele me segurava. Me protegia.
     - Shhhh... Tá tudo certo, agora. Calma.
     Ele tinha razão. Tudo estava certo, ali. Nunca devia ter mudado.


→ 12:00:45 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

I'm sorry.



 
     Bernardo,
     Mais cedo ou mais tarde, você vai vir aqui checar como eu tô e vai acabar lendo isso: eu te adoro. Nunca, nunca poderia ter imaginado um amigo melhor. Você sabe que, se pudesse, eu não seria tão estúpida e me daria uma chance de ser feliz de novo. Com certeza, você seria o cara perfeito pra mim (e pra qualquer outra garota), se eu não fosse tão problemática! Me desculpa. Por favor, não some.
     E obrigada pela música. É linda.


→ 09:28:22 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

Haze.

     Eu nunca fui estúpida. Talvez um pouco distraída, mas não burra. Tudo era mais que óbvio. Ainda que tivesse demorado, eu podia finalmente perceber as mesmas coisas que todas as garotas do colégio já tinham notado.
     A primeira, ele era bonito. Não que fosse possível ficar alheia a isso por tanto tempo, mas eu nunca tinha parado pra prestar atenção de verdade em como os cabelos bastante escuros, a pele morena e os olhos apertadinhos, além dos ombros largos e fortes, faziam do Bernardo um cara bem atraente.
     A segunda, ele gostava bastante de mim. E, apesar da insistência em me chamar de melhor amiga, ali eu tinha percebido que não era só isso. Todo o cuidado, toda a dedicação e todos os olhares, há tempo tão claros pra os outros, só então ficaram nítidos pra mim.
     A terceira, eu gostava dele também. Talvez não tanto quanto ele de mim e, com certeza, muito menos que do Rafael, mas gostava. O Bérn me fazia esquecer o quanto eu detestava a minha realidade e sentir que eu não estaria sozinha. Tudo melhorava bastante quando ele vinha me ver.
     A quarta e última, eu estava cansada. Cansada de esperar um milagre, um retrocesso do tempo, um remédio. Cansada de ficar só. Cansada de manter o lugar do Rafael como se ele realmente me amasse e fosse voltar.
 
• • •
 
     - No que você tá pensando?
     Eu tinha me distraído considerando os fatos.
     - Curiosidade mata, sabia? - Virei pra encarar um Bernardo sorridente.
     - Uau, quantos segredos!
     - Sei guardar segredos bem melhor que você, Bérn. - Ri.
     Ele me encarou, ainda com um sorriso. - Já que eu sou tão ruim nisso, não tem problema de falar em voz alta que, pelo tanto que eu gosto de você, poderia me casar contigo agora, tem?
     Respirei fundo, daí ri de novo. - Também gosto de você, Bérn.
     - Eu sei disso.
     Perturbador. Quando os lábios do Bernardo tocaram os meus, eu ainda considerava se corresponder era o melhor.
 
• • •

     - Você se acha muito névoa. - Ele falou, no hall do meu prédio.
     - Desculpa, mas já são nove da noite e eu só funciono até as sete.
     Riu da minha cara, como sempre. - Você acha que ninguém vê através de você, Liv, mas, na verdade, tudo que você pensa e sente parece... uma lagoa transparente.
     Foi a minha fez de rir dele. - Por que o papo geográfico a essas horas?
     Ele me abraçou.
     - Eu sei que eu podia ser o melhor pra você... Mas será que você também sabe disso?
     - Bérn, na boa, não estraga a t...
     Me beijou. Eu não tinha mais motivos pra pesar fatos.
     - Gosto muito de você, Olívia. Achei que podia te fazer gostar de mim também. Eu tenho certeza que a gente teria ficado junto e dado certo, se o Rafael nunca tivesse aparecido. - O nome, como sempre, me fez congelar. - Só que hoje à tarde eu percebi que eu não sou quem você quer.
     - Bérn...
     - Cara, não tem problema. Foi legal passar o dia contigo. Você sabe que é a minha melhor amiga.
     Eu o abracei. Não, eu não queria que ele fosse embora.
     - Sobe, Liv. Tia Lígia deve estar preocupada.


→ 09:07:12 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

Waiting.

     Eu deveria escrever minhas observações de mundo aqui. Falar sobre o quanto odeio as enchentes assassinas, o tratamento dado aos moradores de rua, a falta de educação e as matérias de jornal. Dizer como me dói a pobreza, o desrespeito, a corrupção. Talvez assim parecesse menos egoísta e transmitisse alguma idéia inteligente, fizesse do meu espaço útil. Mudasse o mundo, ou começasse.
     Pena que, agora, não consigo colocar pra fora nada melhor que histórias egocêntricas e ocas, porque elas são a única coisa que tem preenchido minha vida nos últimos meses. Acho que me tornei igualmente vazia. Eu vejo, mas não sinto.
     Todas as minhas energias estão voltadas para a espera. De uma novidade. De uma oportunidade. De um acontecimento significativo. De qualquer coisa que me tire da inércia. De que isso passe.


→ 18:39:53 na categoria: Egocentrismo
 

 
 

No moon.

     Férias. Finalmente, férias. Finalmente, um tempo pra me me afogar em todos os livros que eu quis ler esse semestre e não pude pelo excesso de obrigações. Eu tinha algumas opções.
     Terminei de ler Quando Nietzsche Chorou, aos trancos e barrancos. Olhei a prateleira... Seu Marco tinha me dado quatro novos presentes: A Menina Que Roubava Livros, Marley & Eu, O Vendedor de Sonhos e Lua Nova. Como todas as decisões mais importantes da minha vida são as que eu tomo errado, escolhi o último. Não me culpem: que garota não fica ansiosa pra encontrar Edward Cullen de novo, mesmo os livros sendo meio mal-escritos?
     Então eu comecei. Devorei os dois primeiros capítulos, rápido como de costume, e entrei no terceiro sem sequer ler o título. Todo o texto é meio viciante; mesmo que fizesse meu estômago embrulhar e uma tristeza enorme passar por mim, eu não consegui parar a leitura quando Edward foi embora ou quando a descrição do torpor de Bella me antigiu.
     Senti o chão de madeira liso sob meus joelhos, depois sob a palma das mãos e, em seguida, comprimido sob a pele do meu rosto. Eu esperava estar desmaiando, mas, para a minha decepção, não perdi a consciência. As ondas de dor que me haviam assaltado antes se erguiam agora com força e inundaram minha cabeça, puxando-me para baixo.
     Não voltei à superfície.
     OUTUBRO.
     NOVEMBRO.

     DEZEMBRO.
     Fechei o livro. Respirava fundo, tentando inutilmente não chorar. Eu não precisava de mais meses vazios; minha vida já está cheia deles.


→ 14:34:23 na categoria: Bem ou Mal Escritos
 

 
 

Girlish.

     A escola não era mais um purgatório; hoje, conseguiu a classificação de inferno. Desde que eu pus os pés na instituição maldita, às 06:37 da manhã, as coisas andavam estranhas.
     Não que, normalmente, as meninas falem comigo, mas... Quando eu chegava, elas paravam de falar. Disfarçavam, olhavam pra os livros como se entendessem o que estava escrito neles, acotovelavam-se pedindo silêncio. Eu realmente não me sentia parte desse grupo há tempo, mas elas conseguiram me fazer sentir uma aberração.
     Levei um tempo pra entender o que raios tinha acontecido comigo naquela noite pra merecer recepções tão calorosas. Melhor dizendo, o que elas achavam que ia acontecer.
     - Eu sei que ele chega domingo. - Inês cochichou com alguém sem perceber que eu estava perto o suficiente. - Só não sei a hora do vôo.
     As novas amigas fizeram todos os sinais da forma mais discreta possível e, como sempre, ela nem percebeu. Há um bom tempo, aliás, era como se ela tivesse esquecido inclusive a minha existência. Tão clássico dela.
     - Posso tentar ligar pra a casa dele e... - Fernanda não resistiu e fez sinal pra mim.
     - Não precisa de tudo isso. - Eu falei, me controlando ao máximo pra não sorrir. - Ele falou que chega às três da manhã, num vôo da TAM. Depois eu te dou o número, Nenê.
     E saí.
     Acho que nenhuma delas nunca vai me perdoar por ser a melhor amiga do Bernardo.


→ 20:52:03 na categoria: Impressões
 

 
 

Bolstering.

     - Pô, gatinha, tu não saiu em nenhuma foto!
     A biblioteca estava vazia, o que deu ao Caio e a mim a chance de fazer besteiras na internet sem que a mulher chata do balcão viesse reclamar. Como de costume, ele fuçava todos os orkuts possíveis atrás de fotos dele/dos amigos.

     - Ah, eu tirei com a minha câmera.
     - Claro, claro. Quantas mesmo? Cinco?

     Eu refiz mentalmente a conta. - Seis. Duas contigo, duas com Clara, uma com Gustavo e outra com Alberto.

     Caio me olhou meio descrente antes de revirar os olhos. Já não me incomodava mais quando ele fazia isso e, eu sei, ele também não se aborrecia muito com a minha autoexclusão. Apesar disso, tentava.

     -Tem certeza que tu não já colocou na cabeça que o povo não presta? - Ele não olhava pra mim. Caio só era tímido nas conversas sérias. - Digo... Será que tu não bloqueia todo mundo por preconceito?
     Terminei de engolir o biscoito que eu tinha enfiado na boca. - É, já considerei essa hipótese. E não, não bloqueio todo mundo. Se fosse assim, eu não teria ficado amiga do Gus esse ano e nem teria dado chance do Beto falar comigo.

     Ele olhou pra mim, meio desapontado com o argumento. - Tá, tem razão. Só acho que tu devia tentar ser mais alegre.
     - Eu sou alegre. - respondi, meio sem fé no que eu mesma estava dizendo.
     - Só insiste em não demonstrar, né?

     - Olha, eu te dou um sorriso!
     Forcei o máximo que pude.

     - Não, Oliver. - Ele me deu um peteleco no nariz e suspirou. - É meio gay dizer isso, mas eu também sinto falta dele.
     Congelei.
     - Do que você tá falando?
     - Do Rafa. - Levantou da cadeira, fechando a página do orkut. - Eu sei que nem eu nem Clara nunca vamos ser pra você tudo que aquele loiro burro era, nem vamos amar você como ele ama.
     - Amava.
     - Ama. Tu sabe que ele só queria o melhor pra tua vida. Ainda quer. - Ele deu de ombros. - Ele foi meio egoísta mesmo, e burro como sempre!, mas tu ainda é o o que sustenta o mundo dele.
     Ele hesitou. Ouvi minha respiração pesada.
     - Quem sabe se tu desbloqueasse ele no msn e ligasse o celular...
     - Não continue. É inútil.
     - Tu gosta dele também, eu sei. E ficou tão burra quanto ele, com a piora de ser orgulhosa.
     E saiu.


→ 15:37:50 na categoria: Impressões
 

 
 

Conspiracy.

     Irritante. Não, mais que isso. Quase insuportável.
     Eu sinceramente não me chateava com o fato da Clara ter me deixado sozinha - ela também tem uma vida e precisa se divertir - ou do Caio estar sempre rodeado de pessoas que, no mínimo, já contaram alguma mentira sobre mim.
     O que incomodava mesmo era não ficar só. Eu sabia, tinha quase certeza, que o meu pai tinha dado alguma informação sobre o meu estado aos professores - não que eles não já tivessem reparado nisso, é claro. Onde quer que eu fosse, um dos responsáveis ia me observando com a intenção quase explícita de impedir que eu lesse Quando Nietzsche Chorou em paz.
     Como se isso já não parecesse suficientemente frustrante, eu surtei mais uma vez. Pelo menos, num relance de sorte em um dia tão azarado, era o cara mais legal da Seção G.
     - Pára de chorar, Oli.
     - Desculpa, Ivo.
     - Que é isso! Eu que tenho que pedir desculpas... - Ele parecia bem sincero e arrependido. - Eu só não fazia idéia de que era tão terrível assim ficar perto dos seus colegas de série.
     - Não é. - Falei, meio sem jeito por mentir.
     - Não tente me enganar. - Riu. - Todos os outros na seção já perceberam o quanto você é diferente dos outros alunos.
     - A questão não é bem diferença... É incompatibilidade. Os assuntos, as brincadeiras, os passeios... Nada deles tem a ver comigo, exceto as fofocas. - Eu ri também, mesmo sem achar graça.
     - Sabe, Oli... Você é meio gauche.
     - É o quê?!
     - Gauche. Me lembra a primeira fase de Carlos Drummond de Andrade.
     - Não importa o que ele fez nessa fase, professor. Eu vou com o senhor até a piscina só como agradecimento pela comparação.


→ 19:56:42 na categoria: Impressões
 



Maria Olívia.

Tenho crises de insônia, preguiça de arrumar o quarto e matéria acumulada pra estudar. Escovo os dentes e tomo banho todos os dias, já disseram que eu cheiro a baunilha. Costumava colecionar conchas, mas hoje prefiro os livros. Tenho plena consciência de que deveria assistir às notícias ao invés de desenhos animados. Mais cedo ou mais tarde, eu vou bagunçar tudo. Não se preocupe, sempre acabo dando um jeito! A lição mais importante que aprendi até hoje foi também a mais difícil de todas: não se pode confiar em ninguém.

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