By Olívia


 
 

Falling into pieces - week.

     Domingo de manhã, msn.

     - Só teve uma coisa que doeu mais que ter de fazer aquilo.
     - O quê?
     - O fato de você achar que eu não te amava, que eu não te queria mais.

 

     Domingo à tarde, aeroporto internacional.
     - Não tá mais irritada comigo, tá?
     - Claro que não. Se estivesse, não teria vindo me despedir! Sei que você só ligou pra o meu bem.
     - Você parece mesmo mais feliz agora. De certa forma, é uma pena.
     - Por quê?!
     - Se não tivesse falado com o Rafael e ainda estivesse triste, eu poderia dar um jeito de ficar mais um tempo aqui contigo.

 

     Segunda de manhã, colégio.
     - Você ficou com o Bê sábado, não ficou?
     - Não, Nenê.
     - E por que ele tava te abraçando, te fazendo carinho... e foi te levar em casa?
     - Ele é meu amigo. Do jeito que você tá falando, parece que eu quase derrubei uma parede com ele.
     - Não mente! Ele também é meu amigo e não me abraça daquele jeito!
     - Talvez seja porque você sempre dá uma de retardada, Inês. Exatamente como tá fazendo agora.

 

     Quinta à tarde, aos sussurros.

     - Você está se divertindo com essa turma, Olívia?
     - Claro que sim, teacher!
     - Ok. Então tudo está perfeito. O segredo de ensinar é você se divertir na sua própria aula.
     - Isso quer dizer que o senhor vai me dar dez nessa avaliação? Haha.

 

     Sexta à tarde, recepção do curso.
     - Se acalma, Oli.
     - Me acalmar como, Rangel?! Minha aula tá toda preparada, tá tudo feito e... o observador não veio! Eu tenho que concluir tudo essa semana! Como eu fazer agora?
     - Primeiro, enxuga esse rosto.
     - Que droga.
     - Olha só: você é muito melhor do que eu era quando tinha a sua idade. Os alunos tão só esperando! Eles ficaram super animados quando souberam que você tinha escolhido o grupo deles pra sua aula experimental. Se acalma e... vai lá!

 

     Sábado de manhã, e-mail.
     From: Rangel
     Subject: Só mais uma coisa...
     DÁ- LHE, OLI!


→ 11:00:02 na categoria: Impressões
 

 
 

Fire and ice, part III.

     Eram quase onze e meia quando eu entrei em casa. Peguei o celular, 7 chamadas não atendidas. Do jeito que as coisas estavam, eu teria um infarte logo, logo. De repente, o telefone piscou. Respirei fundo. Atendi. Será que nunca ia acabar? 
 
     - Não desliga, Olívia! Por favor!
     - Ahn... Oi, Rafa.
     - Como conseguiu o número? Foi o Diego, não foi?
     - Não, foi o Vinícius. Mas não se incomoda. Não vou voltar a ligar. Aquilo foi só um engano. Desculpa ter interrompido tua noite.
     - Não! Por favor, presta atenção. Na verdade, você não devia nem ter esse número. Não era pra ligar, mas... você não tem a menor noção de como eu tô feliz! Você tá... bem?
     - Sim. Tudo muito bem. Não precisa perder seu tempo comigo, eu nem... nem queria ter ligado. Boa noite.
     - Não faz isso... Quando você desligou, eu vi que era teu número. Não dava mais pra fingir que eu não sinto tua falta mais que tudo. Me desculpa por tudo que aconteceu. Por como aconteceu, principalmente.
     - Não estou tão propensa a isto. Só me deixe desligar, por favor.
     - Você não faz idéia de como eu fiquei mal depois. Eu não conseguia parar de pensar em você; queria saber como você tava, se tinha tomado seus remédios direito, como tinham sido seus dias, se tava feliz... Queria te mandar notícias, contar como é a minha nova vida, falar das pessoas que eu conheci.
     - Eu... não faço idéia?! Se quer saber, eu tô realmente bem, pra alguém que acreditava que o namorado ia voltar em sete dias e então foi informada de que era o fim. Pra quem passou semanas sem entender o porquê disso, se matando pra manter o controle e não preocupar os outros com o verdadeiro estado mental, é, eu estou bem mesmo.
     - Se eu tivesse terminado antes, não ia funcionar, você sabe disso. Eu não ia conseguir ficar longe de você. Eu tenho certeza que você nem sabe o motivo de...
     - Sei sim. E não justifica. Eu teria feito tudo pra ficar contigo. Nunca reclamei de todos os problemas que a gente tava enfrentando. Eu sabia que não ia ser fácil, mas eu não abriria mão de você por nada.
     - E eu trocaria qualquer coisa pra te ver feliz. E você não estava feliz comigo.
     - Você acha que eu tô feliz agora, sem você? Eu te amava, Rafael, e você sabia disso.
     - Eu te amo, Olívia, e parece que você ainda não entendeu isso.
     - ...
     - Era insuportável pensar que você estava perdendo as coisas boas da sua vida por minha causa. Eu me sentia... Não sei. Algo que tava te impedindo de crescer, de se divertir, de... viver. Teu pai tava te tirando tudo: saídas, dinheiro, liberdade; ele não me queria mais junto de ti e eu sei que, de certa forma,´ele tinha razao... Mas você não aquietava,ia ficar enfrentando ele o tempo inteiro!... E ainda queria largar tudo que construiu aí pra ficar comigo, sem pesar se era o melhor a fazer. Não lembrou nem que tem um emprego praticamente garantido numa das melhores escolas daí, né? Se você não queria pensar no seu futuro, eu tinha que fazer isso. Você é louca. Mas nem é hora pra uma conversa dessas, eu não esperava nunca que você ligasse.
     - Por mim, tanto faz. Eu tô cansada, exausta. E perdida.
     - Boa noite, então. Me desculpa.
     - Boa noite, Rafa.
 
     Aquele "Eu te amo, Olívia" fez minha cabeça girar pelo resto da noite, até que, finalmente!, eu não consegui mais pensar em nada.


→ 22:35:27 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Fire and ice, part II.

     Quando ouvi o que o Bernardo tava dizendo e associei com a realidade, me bateu um pânico. Tentei afastar o telefone e sair, mas o Bérn segurou meu braço e me olhou com cara feia. Pena, ele manteve o celular perto o bastante pra eu ouvir a única chamada e o click no outro lado da linha. Ele sussurrou um "Vai lá, garota, é a sua chance." e saiu. Pela primeira vez em alguns dias, senti todas as partes do meu corpo. Dedos, pés, pescoço, estômago; tudo queimava, ardia.
 
•••
 
     - Alô!
     - ...
     - Alô? Vinícius?
     - ...
     - Tem alguém aí? Rafael falando!

•••

     Desliguei. Algo inesperado tinha acontecido. Eu não estava apenas inspirando, expirando. Eu estava respirando. Havia ar nos meus pulmões e, o mais incrível!, eu podia senti-lo.
     Achava que escutar a voz do Rafael seria como uma faca, rasgando tudo que estava quase cicatrizado, mas não. Era um remédio. Algum analgésico. Infelizmente, o efeito era absurdamente rápido... e curto. Quando apertei o botão vermelho, a realidade me atropelou com a violência de um caminhão.
     Corri pra o Bérn. - Me leva pra casa.
     - Mas, Liv! ...
     - Por favor, não quero mais ficar aqui.
     Minutos depois, estávamos na avenida principal.


→ 15:29:34 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

Fire and ice, part I.

     O vento gelado que vinha do mar me acalmava. Me fazia sentir um pouco entorpecida, soprava na varanda, de onde mal dava pra escutar a música, e afastava qualquer pessoa que estivesse sem um bom casaco. O último item englobava qualquer outro convidado do Caio, menos eu.
     Meu amigo tinha resolvido dar uma festinha de despedida pra o Bernardo, que tava voltando pra Minas, e convenceu todo mundo a tentar me arrastar pra lá. Conseguiu. Com tantos comentários insistentes de "Vamos, vai ser legal!", eu fiz a besteira de fingir que estava no clima pra reuniões. Mas aquela varanda fria, silenciosa e pouco movimentada me provou o contrário.
     Eu tava curtindo, de olhos fechados, o barulho quase estuporante da brisa quando alguém sentou do meu lado. Não me movi.
     - Você devia ter alguma idéia de como eu odeio te ver assim.
     - What's your problem, Bérn? - Perguntei, ainda de olhas fechados. - A festa é sua; 80% das garotas vieram na esperança de você se despedir da cidade ficando com elas e seus amigos todos tão aqui pra te ver. Por que diabos você está na área mais distante deles?
     - Qual é o seu problema, Liv? Minha melhor amiga tá claramente abatida e você quer que eu vá curtir as menininhas. - Ele falou, brincando com meu nariz e me forçando a abrir os olhos e encará-lo. - Você tá pensando se vai ligar, né?
     Bernardo puxou minha cabeça pra o ombro dele delicadamente e mexeu nos meus cabelos.
     - Eu não teria feito isso se fosse você, garotão. Inês acabou de me olhar com uma cara de "Tá encrencada comigo segunda-feira!"
     - Primeiro, ela sempre faz isso; finge que vai matar todo mundo que toca em mim e depois, quando eu chego, ela corre. Segundo, não foi isso que eu perguntei.
     O nó na minha garganta apareceu de novo. Apertado.
     - Eu quero saber a verdade, quero ouvir da boca dele... mas tô com medo do que vou escutar. Medo de machucar mais ainda o que já tá doendo.
     - Você nunca teve medo.
     - Eu nunca tive sequer uma vida. Você sabe... Antes dele aparecer, você lembra como eu era.
     - É. Mas... não gosto de te ver assim.
     Ele me soltou e foi tudo rápido demais pra a lentidão com que eu tava pensando. Bernardo abriu a minha bolsa, pegou meu celular e mexeu em alguma coisa nele.
     - Essa é mais uma das coisas que você me força a fazer mesmo eu tendo certeza de que vou me arrepender depois. - Colocou o celular na minha orelha. - Tá chamando, Liv. Nem pense em desligar.


→ 12:58:20 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

The key.

     Eu tinha que me controlar enquanto a porta branca do número 1009 permanecia imóvel. Era isso, só isso, de que eu precisava pra não estragar tudo, mas não parecia que os meus joelhos queriam contribuir. Eles tremiam. Enquanto eu me concentrava em mantê-los parados, as chaves fizeram barulho. Um cara, praticamente uma cópia morena e um pouco menor do Rafael, estava bem surpreso.
     - Olívia?!
     - Desculpa ter subido sem avisar, Vinícius. - Era difícil não tremer e falar coerentemente ao mesmo tempo. - É que o porteiro já me conhece. O Diego tá?
     - Não, ele foi ver a Talita. Mas... - Ele hesitou tentando não ser rude, acho. - O que você tá fazendo aqui?
     Perguntei se podia entrar e o mais velho dos meus ex-cunhados se apressou em sair da frente. O Rafa era o único dos três que não trabalhava, por isso mesmo era o maior responsável pela arrumação da casa. Mesmo que as coisas não tivessem acontecido daquela forma, eu sentiria falta dele ali. Tudo estava uma bagunça!
     - Bem... Eu preferia falar com o Diego, mas contigo também adianta. - Eu realmente não sabia por onde começar. Diego sempre foi muito mais simpático e aberto comigo que o Vinícius... e não sabia guardar segredos. - Olha só, eu sei que o Rafael contava tudo pra vocês. Só queria entender o que aconteceu!
     - Por que não veio antes? - Esqueci de dizer o mais difícil: o Vinícius era uma máscara. Se ele odiasse ou amasse o que estava ouvindo, não importava; ele sempre olhava pra você com a mesmíssima expressão. - Quero dizer, faz um mês! Por que só agora?
     - Eu não sei, tá legal? Eu não tinha condição de vir antes, mas não podia esperar mais. Você vai me dizer? - Na última frase, minha voz subiu um tom. Ele deu um meio sorriso.
     O Vinícius respirou fundo. - Não me leva a mal, não vai dar pra enrolar. Eu tenho um compromisso daqui a pouco, Olívia.
     - Basta que você diga por quê foi daquele jeito.
     - Senta aí, vai.

     Eu me acomodei no sofá mostarda, fofo o suficiente pra engolir alguém se fosse preciso.
     - Pelo que ele me contou, teu pai passou a ser contra o namoro de vocês quando você falou em ir morar com ele. Quero dizer, toda aquela parada do Rafa querer fazer o IME esse ano, ir morar no Rio. - Pausa. Ele pesava se devia me contar ou não. - Ele tava preocupado; teu pai tava brigando contigo, tirando tuas coisas, te impedindo de sair... Fora que você disse que ia se arriscar por lá deixando casa, um quarto só pra você, sua família e seu conforto... e até seu trabalho. Ir com ele seria ser pior pra você, ele achava.
     Eu me sentia exatamente como da última vez em que fui pra o aeroporto. Nada, só um vazio enorme.
    -Além do mais, você não tava mais ficando junto dos teus amigos, não queria mais se divertir com eles. Digo... Ele falou que você sentia falta, mas trocava qualquer coisa só pra vir pra cá ou pra sair com ele. Sei lá, ele achava que tava atrapalhando.
     Eu já tinha começado a chorar, mas de raiva. Isso era tão... tão... Rafael! Tão altruísta e idiota, tão...
     - Calma, Olívia! Não... fica assim!
     - Brigada, Vinícius. Eu... - Respirei fundo. - Não quero ouvir mais. Seu irmão é um imbecil. - Eu enxuguei o rosto e me levantei de repente, pisando com força em direção à porta. - Vou embora. Desculpa te atrasar.
     Quando violência com que segurei a maçaneta fez as chaves balançarem de novo, - Olívia! Eu me virei. Vinícius me dava alguma coisa.
     - É o número do novo celular dele.
     Fiquei apreensiva. - Eu... Acho que não quero não. Não é bom mexer no que já tá péssimo.
     - Sério, Oli. Pega. Pelo que eu tô vendo, nem tudo está tão bem quanto ele pensou que ficaria: nem você, nem ele. Acho que vocês precisam conversar.


→ 14:56:13 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Poems and flowers.

     Falta de ar. Auto-controle. Uma carta.
     O livro de Literatura, que eu não abria há pouco mais de um mês, trazia no capítulo sobre Mordernismo a última surpresa que o Rafael tentou me fazer. Infelizmente, no meio da aula. Em pensar que eu arranquei todas as páginas do caderno em que ele tinha escrito qualquer coisa bonita.
 
"Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.
Floramarílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha.
Catléia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar.
Rododendro e crisântemo e junquilho meus.
Meu ciclâmen macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha. Forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta... amor-mais-que-perfeito.
Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

                                  Declaração de Amor, Carlos Drummond de Andrade
 
Para a maior decifradora de códigos alheios nerd em Ciências Humanas, o maior amor do mundo. Rafa."
 
Como se as lembranças não bastassem, disse na escola que estava com enxaqueca e fui direto pra casa, criar mais um motivo pra suportar a dor pulsante. Flores trazem consigo símbolos e, se você não souber algum deles, o Google sabe. Acabei trocando uns por outros.
 
"Minha flor minha flor minha flor.
Minha juventde minha cura minha vitória minha amizade.
Minha sinceridade.
Meu sonho minha redenção minha elevação espiritual.
Minha energia.
Meu renascimento.
Minha delicadeza.
Flor flor flor.
Orgulho. Esperança. Sorte. Família minha.
Pureza bondade admiração.
Meu capricho, minha saúde.
Ah, minha elevação. 
Elegância e harmonia e criação minhas. 
Minha alegria imortal.
Beleza minha.
Crescimento felicidade minha. Reflexão proteção amor paixão minhas.
Destino... mais que eternidade.
Minha vida. Meu último amor.
Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte."

 
O problema todo é que não tinha data. A dúvida que o ex-poema-esquisito deixou fez com que eu levasse em consideração as idéias-antes-imbecis do Bernardo.


→ 13:08:30 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Bérn.

     Às nove e meia da manhã, eu tava chegando na frente do ponto de encontro. Quando meu celular chamou, um cara moreno do outro lado da rua pensou em atender. Moreno e muito mais alto do que na última vez que a gente se viu, diga-se de passagem! Acho que os cabelos bastante pretos e lisos do Bernardo estavam uma cabeça acima dos meus fios vermelho-desbotado. Nossa! Quando a Clara e Maíra ficaram elogiando meu amigo exaustivamente ontem à noite, eu não podia imaginar que ele estaria mesmo tão bonito quanto elas descreveram.
     Enquanto eu atravessava a rua, ele abriu o meu sorriso preferido. Pelo menos o sorriso continuava como era!
     - Ah, Bérn, eu tava morrendo de saudade! - Eu corri pra abraçá-lo.
     Ele fez aquela cara de convencido enquanto me colocava no lugar.
     - Quando me contaram o que sua Barbie tinha feito, eu não pude deixar de vir.
     - Não fale dele a...
     - "Não fale dele assim, você sabe que eu nunca gostei de ninguém desse jeito!" - Ele completou, imitando minha voz de um jeito quase irritante. - Qual é, Liv?
     Suspiro. - É, eu sei. Ele foi embora.
     - Não tem problema. É que, você sabe, eu prefiro os morenos, altos e fortes!
     - Academias militares acabam com a opção sexual da pessoa! Hahaha³

• • •

     - Eu sou um idiota.
     - Não é não! Por que tá dizendo isso, Bérn?
     - Porque, se eu não fosse, não te deixaria ficar mal por ele. Eu te daria uma cantada e chamaria pra tomar sorvete! Haha³
     Eu odiava as tentativas de piada do Bérn. Eram bobas, sem graça e não me faziam sentir muito confortável, principalmente porque 99% delas eram verdades camufladas com uma risada.
     - Ah! Você é idiota mesmo.
     Ele ria de mim como quem ria de uma criança. E, ainda bem!, me abraçava como a uma criança também.
     - Você não devia estar assim. É uma das garotas mais fortes que eu já conheci. - Prendi a respiração. Da última vez que ouvi aquilo, eu não tinha saído bem. Ele continuou. - Não devia estar chorando por aí. A Liv com quem eu cresci já teria ligado pra ele e dito umas verdades!
     - Ele não entra mais no msn, excluiu o orkut. Não tem mais celular.
     - Mas tem um endereço.
     Perplexidade. - Você quer o quê?! Que eu pegue um avião?
     Só então eu percebi o que ele queria dizer. Só o Bernardo mesmo pra poder pensar naquilo e achar uma idéia genial. Ele foi mais rápido que eu ao falar. - Os irmãos dele continuam morando aqui... Não continuam?


→ 14:29:51 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

Breathing.

     Ali, com as luzes apagadas e sem expectadores, eu não precisava fingir. Isso era desesperador. Minhas máscara e postura de garota forte eram inúteis. Impossível enganar a si mesmo quando não há ali alguém merecendo um esforço a mais, que se preocupa. 
     No escuro, tudo tinha proporções assustadoras. A cama era tão macia que chegava a machucar os ossos, tão quente que quase queimava a pele. Tudo deveria estar preparado pra me confortar e, no entanto, só me doía mais saber que eu necessitava disso. O silêncio só era quebrado pelo pulsar forte do meu coração ou pelo choro descontrolado abafado com o travesseiro úmido. Não era necessário que ninguém mais em casa ficasse mal pela minha própria dor.
     Não era necessário sequer que eu ficasse mal pela minha dor. Eu podia sentir a pressão que vinha de todos os lados, comprimia meu peito e fazia com que os músculos ficassem tensos. Infelizmente, tudo que eu podia fazer pra evitar era controlar. Vai passar, Olívia, vai passar. Respire fundo.
     Respire.


→ 14:27:50 na categoria: Egocentrismo
 


     "A senhora lembrou de um cisne que havia comprado muitos anos atrás em Shangai por uma quantia insignificante. Este pássaro, gabou-se o vendedor, já foi um pato que esticou seu pescoço na esperança de tornar-se um ganso, e agora veja! - ele é bonito demais pra ser comido.
     Então a mulher e o cisne navegaram, cruzando um oceano de milhões de li, esticando seus pescoços em direção à América. Durante a jornada, ela murmurou para o cisne: 'Na América, eu terei uma filha exatamente igual a mim. Mas lá ninguém vai dizer que seu valor é medido pela sonoridade da ejaculação de seu marido. Lá, ninguém vai olhá-la com desprezo, porque eu farei com que ela fale apenas inglês americano perfeito. E, lá, ela estará sempre cheia demais para ter que engolir qualquer tristeza. Ela vai entender o que eu quis pra ela, porque eu lhe darei este cisne - uma criatura que se tornou mais do que todos esperavam.'
     Mas, quando ela chegou no novo país, os oficiais da imigração tiraram-lhe o cisne, deixando a mulher a tremular seus braços com apenas uma pena do pássaro de memória. E então ela teve que preencher tantos formulários que esqueceu por que havia ido até lá e o que ela havia deixado para trás.
     Agora, o tempo passou. Ela teve uma filha que cresceu falando apenas inglês e engolindo mais Coca-Cola que sofrimentos. Por muito tempo, a mulher quis dar a ela a única pena de ganso e dizer: 'Esta pena pode parecer sem valor, mas ela veio de longe e carrega consigo todas as minhas boas intenções'.
     E ela esperou, ano após ano, pelo dia em que ela poderia dizer isto a sua filha em um inglês americano perfeito."

Amy Tan


→ 13:59:06 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

How real girls punch.

     - É verdade o que eu acabei de saber, Wally? - Lembram da musa inspiradora do post sobre retardados? Era ela. Entendam: quando uma garota te considera 'a pessoa mais odiável do planeta' e você se ferra, ela não vai perder a chance de pisar no seu pescoço. Não mesmo.
     - Não enche. - A Olívia de saco cheio vocês não conheciam ainda.
     - Tá irritada por quê?! - A risadinha sarcástica à qual, provavelmente, todos vocês já foram apresentados algum dia. - Você sabe, Olívia, que tudo era uma questão de tempo.
     - Mayana, vai catar coquinho. - Espero que todos tenham compreendido que não foi exatamente 'catar coquinho'.
     - A gente avisou, ele não quis ouvir, você incentivou. Deu no que deu! Que você não prestava, todo mundo sabia...
     - Qual é? Seu namorado viadinho não tá dando conta de fazer sua vida interessante o suficiente pra você ter que se divertir com a minha?
     - Oh, o meu? Pelo menos até agora ele não pegou um avião pra ficar o mais longe de mim possível. Foi só uma questão de tempo pra o Rafael perceber também a droga que ele tinha feito.
 
     Se eu dissesse: 'Eu juro que não queria ter feito o nariz dela espirrar sangue!', eu seria muito, muito mentirosa.


→ 20:50:13 na categoria: Egocentrismo
 

 
 

The debate.

     O assunto: casamento. O grupo pró: o da Carlie. O grupo contra: o meu. Objetivo da aula: promover um debate. A armadora disso? Biancca.
     Ok, a intenção dela era apenas trazer um tema divertido pra sua aula experimental (e até conseguiu!), mas, eu confesso, no momento que eu tava, não foi fácil ser colocada no grupo contra sendo meio-pró, inventar alguns argumentos ridículos (quase cômicos, admito!) contra o casamento e, pior, ouvir a Carlie falando.
     A cada vez que as palavras compromisso, escolha, companheirismo e vida eram prununciadas, doía um pouco mais. Doía porque, por pior ou mais incrível que pareça, ela via tudo aquilo com os mesmos olhos que o Rafa. Doía porque ouvi-la falando era, de certa forma, escutar o próprio me dando bronca por eu me esquivar no assunto casamento antes de me abraçar e dizer que me queria pra ele o resto da vida. Que ia me amar pro resto da vida. Doía.
     A cereja do bolo ficou por conta do avaliador, que fechou a aula comentando algo sobre saudade. Logo saudade. Saudade doía também.


→ 18:18:16 na categoria: Impressões
 



Maria Olívia.

Tenho crises de insônia, preguiça de arrumar o quarto e matéria acumulada pra estudar. Escovo os dentes e tomo banho todos os dias, já disseram que eu cheiro a baunilha. Costumava colecionar conchas, mas hoje prefiro os livros. Tenho plena consciência de que deveria assistir às notícias ao invés de desenhos animados. Mais cedo ou mais tarde, eu vou bagunçar tudo. Não se preocupe, sempre acabo dando um jeito! A lição mais importante que aprendi até hoje foi também a mais difícil de todas: não se pode confiar em ninguém.

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