Não lembro bem se foi no final do mês passado ou no começo desse mês que a notícia se espalhou: uma menina de nove anos, estuprada pelo padrasto assim como a irmã deficiente de catorze anos, estava grávida de gêmeos. Como se a própria situação já não fosse suficientemente bizarra, apesar de estarmos nos acostumando com tais fatos, o que se seguiu contribuiu pra que se tornasse uma polêmica.
O padrasto de 23 anos, desempregado, foi preso e declarou que a criança o havia seduzido, por isso o abuso sexual, mas que o estupro não aconteceu. E mais: falou que ia pedir um teste de DNA, porque... quem sabe com quem uma pessoa com menos de dez anos anda fazendo sexo, né!?
A garota e a irmã foram encaminhadas ao Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, entidade pública de referência no estado de Pernambuco. Após a confirmação da violência, a mais nova foi levada ao Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros. Além do estupro, a gestação era de alto-risco; os dois fatores são previstos por lei para a realização do aborto. O procedimento foi feito na quarta passada, e a menina recebeu alta ontem.
Alguém aí tá percebendo a ausência de uma instituição que, num caso desses, não deixaria de se manifestar?! Pois é: cadê a Igreja Católica? Pra quem não sabe, o catolicismo é absolutamente contra o aborto, não importando qual a situação da gravidez, porque vai contra o direito divino da vida.
O arcebispo de Olinda, Dom José Cardoso Sobrinho, logo de cara divulgou que ia excomungar todos os profissionais que tivesses participação no aborto (por isso o Imip não quis se envolver e transferiu a paciente!). Como a medicina se sobrepôs à religião, neste caso, Dom José seguiu em frente: comparou o procedimento com o Holocausto, quando os nazistas alemães exterminaram quase seis milhões de judeus. "Ele cometeu um crime enorme, mas não está incluído na excomunhão. Este padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é?! O aborto, eliminar uma vida." Ok, os médicos estavam mais errados que o padrasto, segundo ele.
Mas não parou por aí, viu? A advogada da arquidiocese, Rilane Dueire, disse: "Seria contra o aborto, mesmo que o estupro tivesse sido com minhas filhas." Pensem o que quiser, prefiro não comentar. Mas vale frisar aqui que a criança em questão tinha apenas 33kgs e 1,36m, ou seja: não tinha o corpo preparado para dar à luz duas outras vidas e corria o risco de ter um rompimento uterino, se são tivesse uma eclâmpia (hipertensão e a presença de proteína na urina) e viesse a falecer, né?!
Cara, isso me revolta. Me fez até interromper a série pra vir aqui protestar também. Nada contra os católicos, os evangélicos, os espíritas, nem religião nenhuma, ok? O problema é que pessoas formadoras de opinião, líderes de um órgão social tão importante, ainda têm uma visão tão medieval para com os problemas contemporâneos. Sou contra o aborto também, mas é necessário que comecemos a analisar as informações que nos são passadas. Se não, onde vamos parar? Segunda Inquisição?