By Olívia


     Dez dicas rápidas pra você ser um retardado assumido e feliz.

     1. Aparência é tudo, meu bem. Que tipo de retardado você será se o seu exterior não apresentar exatamente o seu 'eu', hein? Para os garotos, eu sugiro um short acima do joelho. É peça fundamental. Talvez um hair-make dividido no meio ajude. Para as damas, o créme-de-la-créme fica por conta de uma saia abaixo do joelho, com estampa colorida e grande, combinada com um tênis. Não esqueça: a meia é crucial. O make-up deve ser bem parecido com o de qualquer rockeira desconhecida.
     2. Um nonsense style é o primeiro passo pra que você seja reconhecido como o próprio retardado. Inspire-se naquela nerd que nunca fala coisa com coisa durante as aulas. Observe também a expressão dela enquanto comenta que sua avó morreu queimada durante uma aula sobre a Inquisição.
     3. Amigos imaginários são um ótima pedida, já que ninguém entende por que você grita e tenta dar show no ambiente social. Se você explicasse que é pra chamar/divertir seu colega que ninguém mais vê, todos compreenderiam e dariam um desconto. Pense nisso!
     4. A dica três também pode ser usada como desculpa para a quatro: pergunte aquilo que já sabe. Durante uma aula superimportante (estou de acordo com o acordo?), chame o professor e pergunte algo com palavras bastante difíceis (mas que todos que deram uma olhada no assunto conseguiriam decifrar). Depois, enquanto ele responde, interrompa-o e dê seqüência à explicaçõ. Não esqueça: Sempre faça uma cara de imbecil e finalize com um 'né?'. Seus colegas entenderiam que você só queria reforçar alguma informação pra o seu amiguinho. Isso é a cereja do bolo.
     5. Nunca, nunca aceite que os outros tenham pena de você pelo seu comportamento idiota. Tenha em mente que as pessoas só te tratam assim porque não te conhecem e que a solução para eles é você se tornar a melhor amiga de todos. TODOS, entendeu? Seja popular. Abraçe, beije, pule nas pessoas. Elas com certeza vão gostar de ter um protótipo de Teletubbie por perto, você não imagina!
     6. Se todas as dicas anteriores não foram suficientes, vamos à segunda fase. Opinar sobre coisas que você não conhece faz você parecer um babaca e tanto, então comece a exercitar. Tente dizer que o roteirista de Benjamin Button fumou maconha, que você não precisa ler Stephenie Meyer pra saber o quanto o livro dela é idiota, que o Obama é um imbecil por ter aumentado o salário das mulheres inglesas e que a Malu Magalhães é a promessa da MPB.
     7. Quanto ao mundo virtual, fica a dica: esteja online o tempo todo no msn e fale com qualquer criatura cuja janelinha pule. Lembre-se: você é popular, man! No orkut, comente em toda e qualquer foto que você vir pela frente. "Que lindo, cat!" e "Oooowwwwnnnn *____________*" são alguns exemplos de comentários bem sucedidos na nossa jornada. No perfil, você pode colocar alguma tagline de Bolywood ou frases poéticas como 'Me abre, me fecha, me chama de gaveta".
     8. Para confirmar todo o seu progresso, arranje um(a) parceiro(a) tão doente quanto você. Cara, não tem idéia de como isso causa efeito!
     9. Se você chegou até aqui, meu querido animal, você já está pronto. O final da nossa caminhada chegou e, agora que você já é um idiota interna e externamente, está preparado para enfrentar o mundo. Não esqueça que, para isso, você não precisa ser feio: Basta usar acessórios de quando você tinha cinco anos de idade ou aqueles óculos que você viu a Heidi Klum usar e acha que ficariam bem com o seu estilo. Aposte em você!
     10. Depois de todo esse esforço, você tem mais é que sentir orgulho de si mesmo! Olhe pra você! É perfeito! Ame tudo que você pensa, fala e é. Afinal, você agora é um retardado completo!

Bônus: se você tem uma colega de classe chama Olívia, adora olhá-la com uma cara de bunda, ama atormentar o namoro dela com o Rafael e manda os textos que ela escreve pra o seu namorado como se você os tivesse escrito, você nem precisava ter seguido essas dicas, porque já é a retardada inspiradora desse post. Obrigada.


→ 12:36:04 na categoria: Impressões
 

     Sei que o Dan tá se esforçando, e que é bem difícil ficar no lugar dele, mas, se ele continuar com essas recaídas, eu não vou se capaz de defendê-lo das investidas e desconfianças do Rafa.
     Hoje o assunto foi a volta do "rolo" dele com a Laila, uma das meninas mais bonitas que eu já vi na vida. Não sou contra, mas também não sou a favor, já que o próprio Daniel admitiu que nunca vai poder amá-la também.
     - Você não devia fazer isso com ela - eu comentei. - Acho que tem que procurar alguém que te faça sentir como a Tina fez!
     - Não vai adiantar, Oli.
     - Ah, você não gostava dela? Mas que coisa! - E o que eu podia esperar, depois que ele fez de tudo uma confusão?
     - Gostava - e virou o rosto pra olhar qualquer outra coisa que não fosse eu. - Mas era um sentimento genérico ao que eu tenho por você.
     Oh, não! De novo não! Se eu já me sentia mal por meu melhor amigo ter se metido de novo em uma confusão amorosa, o que dizer de quando eu era o centro de uma delas? - Dan, por favor...
     - Não dá! Quando eu te vi naquele dia, com aquele vestido, mais linda do que nunca, eu tive raiva de você ser dele! Queria ter te roubado ali mesmo! - Eu respirei fundo. Quem mandou falar no que não devia? - Queria ter dito que você nunca vai deixar de ser única pra mim... e que eu te amo.
     Nessas horas, eu vejo o quanto a chegada repentina do Rafa à minha vida virou tudo de cabeça pra baixo. Há algum tempo, só aquele prazer de ser importante pra alguém (muito!) disputado já invadia a minha cabeça e ficava lá por dias... O que dizer do que eu sentia pelo Dan? Eu gostava tanto dele que podia jurar nunca mais desejar outra pessoa. Agora, esse sentimento preenchia uma parte muito pequena. Rafael fez com que meu coração parecesse triplicar!
     - Obrigada, Dan. Isso é tudo que eu posso dizer (já que a culpa de ter ido embora da sua vida de uma forma tão brutal está ocupando minha garganta).


→ 19:34:23 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

Popcorn and stupid friends.

      Pride and Prejudice (ou, se você preferir nosso português sem ritmo para títulos cinematográficos, Orgulho e Preconceito) é um dos filmes mais lindos que eu já vi. Eu não devia tê-lo estragado escolhendo a companhia errada pra assisti-lo pela primeira vez. E, olha!, isso rima com Inês.
     Deus que me perdoe, eu adoro minha amiga, mas eu tenho que lembrar que ela é princesa demais pra fazer qualquer programa que não envolva um mundo de contos de fadas como o em que ela vive.
     "Keira Knightley não é boa como protagonista." ela comentou.
     "Por quê?" e lancei meu olhar amedrontador antes que ela pudesse dizer que o motivo era a Keira estar morena no filme. Depois voltei a admirar o Sr. Darcy.
     Inês encheu a boca de pipoca pra que não conseguisse dizer muito mais que um "Ela tem uma aparência... muito rude." Qual é!? Só porque ela não é uma Ashley Tisdale da vida? "E eu não gostei da personagem. Essa Elizabeth é muito desbocada. Parece você."
     Eu ignorei a frase final, embora tivesse uma resposta prontinha. "Ah, vai. É uma história de amor linda!"
     Ela jogou os cabelos loiros pra trás naquele jeito modelo. "Eu nunca iria me apaixonar por um cara tão grosso e que me chamasse de tolerável!!!"
     Nem tinha começado a rezar por uma chance de fazer ela calar a boca ainda! Que sorte! "Pois é, Nenê. Eu já gostei de uma cara que falou que eu era comível."
     E fica a dica: assistam. Se possível, sozinhos.

"Sometimes the last person on earth you want to be with is the one person you can't be without."


→ 21:01:14 na categoria: Impressões
 

 
 

Explain to me how I lost my power.

     Quando Rafael começa com essas histórias de sair com ex-namorada/ex-ficante/amiga-que-daria-pra-ele-numa-boa, eu fico, no mínimo, tensa. Não é fácil namorar um loiro de 1.80, cheiroso, com uma voz encantadora e um sorriso... mais ainda! E eu nem posso achar ruim o consolo da Cláudia ter sido levá-lo num almoço na casa da avó e apresentá-lo à toda família? Ah, paciência.
     Daí ele chega aqui, na maior cara-de-pau do mundo, depois que minhas unhas foram pra o espaço. Lindo, particularmente. "Como passou o dia, meu amor?"
     "Muito, muito ocupada." Admito que, desde que o vi pela primeira vez, fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo perto dele se tornou bastante complicado. Eu me obrigava a manter a concentração no queixo erguido, no meu olhar distante do dele e na escolha das palavras que o fossem fazer sentir mais culpado.
     "Ocupada com o quê?" ele me abraçou.
     "Com nada suficientemente bom pra te fazer passar menos de cinco horas com a Cláudia."
     Quando me atrevi a olhar com 'aquela cara irritada' que eu vinha ensaiando desde que ele saiu, os dedos dele já estavam entre meus cabelos. Um beijo. Muito convincente.
     "Eu fiquei compondo algumas músicas, estudando Português e vendo People+Arts. Jantei pizza. Está bom assim?"
     "Muito." Passou a mão esquerda pela minha cintura e começou a dançar comigo uma música que só ele ouvia. "Você tem alguma noção do quanto eu te amo?"
     E sussurrou John Mayer no meu ouvido, me deixando entender o ritmo antes silencioso. Onde foi parar meu poder de colocar as pessoas onde eu queria?!

"[...]When she's layin' on my shoulder, on the sofa, in the dark
Quando ela está deitada no meu ombro, no sofá, no escuro
And about the time she falls asleep so does my right arm
E ela adormece ao mesmo tempo que meu braço
And I want so bad to move it 'cause it's tinglin' and it's numb
E eu quero muito me mexer, porque ele está formigando e dormente
But she looks so much like an angel that I don't wanna wake her up
Mas ela parece tanto com um anjo que eu não quero acordá-la
When she steals my heart again and doesn't even know it
Quando ela rouba meu coração de novo e nem sequer sabe disso
Yeah, I live for little moments like that!"
Yeah, Eu vivo por pequenos momentos como este!


→ 14:46:01 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

This circle never ends.

     Rafael, no telefone. "Vou sair com a Cláudia".
     Quer dizer que eu tinha esperado duas horas por esse telefone pra isso? "Como é que é?"
     "Não começa, Oli." Eu começo? EU começo? Eu mereço, isso sim.
     "Rafael Albuquerque..." Conte até dez, Olívia. CONTE DEVAGAR!
     "Olha só, ela tá sozinha na cidade, sem amigo nenhum fora eu. Os pais dela tão numa crise e ela só vive brigando com o irmão..."
     Por que será que eu preferia não ter escutado isso? Busquei dentro de mim aquele pouco de compaixão pelos outros que, com certeza, eu deveria guardar. Todo mundo tem um tantinho dentro de si. Ou, pelo menos, eu esperava que tivesse.
     Continue respirando, Olívia. "Faça o que quiser."
     "Você tá bem?" Eu ouvi, além de dúvida, preocupação. E, dessa vez, ela não me incomodou nem um pouco.
     "Bem.. Da última vez que eu disse pra um namorado consolar uma colega por que os pais dela estavam se separando, não deu muito certo."
     "Não foi isso que eu perguntei."
     "Quando eu pedi pro Miguel conversar com a Christine pra dar uma força, eu passei dois meses com crises bulímicas e os olhos inchados. Então, vá por mim, é melhor eu não comentar."

     Quem mais aí tá me achando idiota além de mim?


→ 15:42:03 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

To love is to understand.

     Foi em Guernica que realmente parei pra observá-lo.
     Já o tinha visto algumas vezes, mas nunca com a mesma atenção. Pablo olhava pra mim e eu não compreendia o que ele queria dizer. Quando o Ivo perguntou o que eu achava daquilo, respondi que era feio. Não medonho, não estranho, nem chocante. Àquele olhar, era simplesmente feio.
     "Sabe o que ele quis mostrar, Oli?"
     Preferi engolir minha indelicada resposta e simplesmente dar de ombros.
     "Guernica foi uma cidade arrasada pela Guerra Civil. Picasso só quis alertar as pessoas quanto ao uso irracional da força naquela ocasião e em outras semelhantes. Presta atenção nos elementos... Animais, pedaços de gente, rostos de desespero, tudo um caos."
     E eu prestei. Vi também o 'olho de Deus' tentando iluminar tudo lá de cima, talvez querendo provar que ainda havia esperança. E uma rosa... Uma rosa.
     Olhei pra Pablo e finalmente o vi. Entendi o seu olhar de volta, dessa vez. Era quase um pedido de socorro, no seu jeito próprio. Achei bonita a intenção dele. Olhei em volta, pra Guernica. Entendi tudo que estava ali. Achei bonito, também.

"Você não consegue gostar do que não pode entender; nem consegue amar o que pode"


→ 22:45:09 na categoria: Impressões
 

 
 

Prejudice against friendship.

     "Desculpa." Ela baixou os olhos e tomou mais um pouco do milkshake de ovomaltine. Maria Clara não é do tipo que não olha nos olhos das pessoas. Aquilo me deixou intrigada.
     "Comé?" foi tudo que eu consegui pronunciar com a boca cheia de McDuplo. O segundo da tarde.
     "Desculpa por ter me afastado,"- ela continuou, meio hesistante, a resposta -"principalmente por um motivo tão bobo... e preconceituoso."
     Eu congelei. Por que, depois de tanto tempo, ela vinha com essas explicações?
     O assunto era nada mais nada menos que o Miguel, o meu ex-namorado, como sempre. Vez por outra, nossas conversas recaíam nele, em como ele enlouqueceu por causa do fanatismo ou em como anda enlouquecendo todo mundo pelo mesmo motivo, agora. Pouco tínhamos falado das reações das pessoas quando souberam que eu, que deveria implorar pra alguém gostar de mim por ser tão problemática, tinha acabado o namoro com o inteligentíssimo, engraçadíssimo, simpaticíssimo Miguel. Muito menos de como eu fiquei depois da coisa toda. As crises de choro e as sessões de vômito constantes já não eram tão boas assim... até que os meus amigos todos, exceto somente o Caio, se afastaram.
     Pra ser sincera, eu não esperava muito mais que isso dos outros. Afinal, quem é que vai querer uma transtornada em fase baixa vegetando do seu lado? Mas não dela, a Clara. Cheguei, na época, a me perguntar o que tinha feito ela ficar tão distante... Mas, quando você está no fundo do poço, não pode ficar esperando que as pessoas venham te salvar. Esqueci as perguntas.
     E a Clara vem com as respostas. Meio atrasadas, mas ali, tão próximas que eu esqueci de tudo em volta.
     "Por que você tá dizendo isso?" eu falei num fôlego.
     "Porque agora, depois de tanto tempo, eu posso ver... que o que pensei foi horrível."
     Eu senti meu rosto se transformar numa careta. "Fala logo! Que coisa! O que você tá querendo me dizer?!"
     "Eu sabia, tá legal? Antes de você me contar tudo aquilo... eu já sabia." Ela ainda não me olhava nos olhos. "Cara, eu fui idiota. Por que raios tanto preconceito, ainda mais numa cabeça tão jovem? Eu não sei por que pensei aquilo, mas... eu sei que não devia ter me afastado. Não devia ter deixado você, minha melhor amiga, na mão."
     Respirei fundo na última frase. "Melhor amiga". Nós duas sabíamos o que significávamos pra a outra, mas quase nunca pronunciávamos. E a Clara, minha melhor amiga, tava ali, pedindo desculpas sinceras e apagando as poucas mágoas que ainda restavam de todo aquele tempo. Eu conseguia ver o arrependimento. Agora eu sabia, bastava isso, e ela não saíria mais do meu lado. Não mais.


→ 16:05:33 na categoria: Laços Estreitos
 

 
 

Just halves of the whole.

     O dia poderia estar um caos. Deveria ter sido estragado por causa dos alunos que não obedecem, do chefe que estressa e do livro que eu tenho que ler até amanhã. Além do mais, tinha toda essa tensão nas costas e minha cabeça implorando pra que algo fosse delicadamente esmurrado. Enfim. A noite estaria péssima... 
     Se não fosse por aquela criatura irritantemente paciente e impossivelmente altruísta. Tão oposta a mim. Cheguei em casa e o Rafa tava na sala, me esperando. Arrumado e sentado junto da dona Lígia no sofá escuro. Como alguém consegue ser tão absurdamente charmoso... sempre?!
     "Ah, pensei que a senhora Albuquerque não ia chegar!" ele falou, e minha mãe fez cara feia. Não sei por que ela ainda se incomoda com essa brincadeira estúpida de me chamar pelo sobrenome dele.
     "Se alguém tivesse me avisado que ia aparecer de surpresa..."
     Em vez de divertidos, os olhos dele ficaram incrédulos. "Eu precisava avisar?!"
     Dessa vez, minha mãe fechou a cara pra mim. E saiu me empurrando, mandando eu tomar um banho e colocar uma roupa descente pra sair com o Rafael. O que diabos era aquilo?!
     Quando saí do chuveiro, meu vestido indiano (o único que fica bom em mim) já estava bem passado em cima da cama. Coloquei! Já que EU não podia saber o que estava acontecendo, pelo menos poderia ir pela cabeça de alguém que devia ter uma noção.
     Em resumo: jantar, passeio na orla, risos e mais risos, depois (secretamente) o apartamento dele. Eu não sabia o que tinha de tão especial hoje, mas estava salvando a minha sanidade depois de uma tarde tão cansativa. Deitados, vendo tv, Rafa me fazendo carinho. O que mais eu podia querer?
     "Você não lembrou mesmo, não é?" e riu pra mim como quem viu uma criança falar pela primeira vez. Não sei se encantado, mas surpreso.
     "Afinal, qual o mistério dessa noite?!" eu perguntei, embora não fizesse muita diferença saber.
     Ele me beijou. Beijo bom.
     "Ok, Oli. Eu desisto." mais um beijo. "Parabéns por um ano de namoro!" e sorriu de novo, aceitando de uma vez por todas que, como metades, a boa memória tinha ido toda pra o lado dele.


→ 20:52:47 na categoria: Metade de Mim
 

 
 

Sweet Silence.

     Não sou de voltar atrás. Nunca fui. Mas hoje de manhã me bateu um arrependimento sem tamanho de todo o esforço que eu sempre fiz pra que as coisas saíssem justamente como eu queria. Sempre consertando a sorte, sempre dando uma arrumadinha no destino.

     O cara que senta do meu lado costumava ser a outra parte do que foi o segundo mais longo relacionamento da minha vida; ele nem me olhava há alguns meses, mas hoje ele riu pra mim. A garota nova bateu um papinho sem compromisso comigo durante as orientações e, nossa!, ela foi muito legal (ainda que tenha andado desde que chegou com uma daquelas meninas que me olham 'de cima a baixo' desde que começamos a estudar juntas). Inclusive aquela outra menina, que não é minha amiga por falta de oportunidade, tá na sala e essa seria uma boa chance de conversar mais com ela sobre tudo que temos em comum. Até o nerd (sim, aquele tipo com cara de louco usando óculos de grau alto) que eu zuava desde que conheci sentou atrás de mim e começou a conversar (coisas não nerds!).
     E eu tentando mudar de sala, porque (eu achava que) as pessoas de lá eram absurdamente imbecis e eu não ia conseguir estudar com aquele bando de gente que, como sempre, não gosta de mim. Em parte, é verdade: as 'líderes' do bando de garotas que não me dirige a palavra a menos que seja extremamente necessário pra a sobrevivência de uma delas estavam lá, me olhando fulminantemente do outro lado, mas quem se importa com elas? As pessoas não me olhavam. Aliás, olhavam sim, mas não daquele jeito rápido e assustado que eu fazia que elas olhassem. Elas simplesmente passavam, me cumprimentavam e eu respondia. Algumas brincavam e depois acabavam continuando a troca de idéias.
     "É que você aprendeu a ficar calada, Olívia. Suas opiniões continuam fervilhando aí na sua cabeça impulsiva, mas sua boca aprendeu a continuar fechada durante o processo." Maria Clara, a única criatura que fala direito comigo ali, adora me usar como objeto de estudo das peculiaridades humanas.
     Mesmo assim, resolvi continuar quieta. Tá ajudando. E, a propósito, também resolvi ficar na sala.

     "A vida é como um piano. O que ele lhe proporciona depende da forma como você o toca."
Desconhecido


→ 23:14:09 na categoria: Egocentrismo
 

 
 

Scent.

     Eu e o Guto nunca gostamos muito das caronas que meu pai arranja pra a gente. Ano passado, em todas as segundas e sextas, tínhamos que chegar ao nosso destino no carro do cara que mora aqui do lado. O filho dele é da idade do Guto e, como a maioria dos pais, os meus juravam que eles iam se tornar 'amiguinhos'. Como a maioria dos pais, também, eles estavam errados.
     Esse ano a gente tinha implorado pra que os ônibus fossem considerados, mas quem vai querer gastar o próprio dinheiro quando o do vizinho está à disposição? Então a gente teve que voltar a acordar às cinco da manhã, a comer correndo e a esperar o corsa azul naquele friozinho matinal. Argh.
     E então ele chegou. Quando entramos no carro, eu percebi que não ia ser tão ruim. Algum dos dois, o pai ou o filho, estava usando o mesmo perfume que o Rafa. Ao menos o caminho não pareceria tão longo :)


→ 15:23:15 na categoria: Impressões
 

 
 

Passion, obsession.

     Infelizmente, ano novo não significa vida nova. Meu quarto ainda é aquele com duas estantes recheadas de livros e cortinas verdes, maior que o do Augusto, meu irmão mais velho. Maior e mais bagunçado, diga-se de passagem. Minha mãe também continua a mesma de sempre, e isso significa que houve mais um Dia dos Gritos aqui em casa. Pelo menos um domingo por mês, ela fica sem nada pra fazer e vai rondar a arrumação dos cômodos. Hoje o ataque foi aos nossos quartos.
     Eu quis morrer. Quando vi, depois do almoço, meus livros e minhas roupas já não estavam mais naquela 'organização bastante pessoal' de sempre: dona Lígia tinha feito o favor de jogar tudo no chão pra que, de uma vez por todas, eu desse um jeito naquilo. Eu fiquei em choque. Não que a montanha de camisetas e calças e shorts e meias me importasse muito...
     Mas meus livros? JUSTO MEUS LIVROS? Será que ela não viu que as séries estavam na prateleira de cima, junto com os paradidáticos? Ou que as gramáticas estavam logo ao lado dos clássicos? Não. Ela nem parou pra olhá-los. Ela só viu que estava um em cima do outro e começou a espalhá-los, sem dó nem piedade. Meus Harry Potter's se embolavam com Thereza Chocar enquanto Capitu se engalfinhava com Marley e John. Meu Deus, que falta de compaixão!
    Com o coração estraçalhado só de ver aquelas páginas amassadas e as orelhas que nasceram de um minuto pra o outro no meu tesouro particular, eu obedeci. Como eu já disse, ano novo não é vida nova, então o que mais eu podia fazer? Chorar e gritar que ela era um monstro não ia adiantar muita coisa. Obedeci.
     Blusa por blusa, livro por livro. Tudo no lugar. Parecia quarto de princesa ou, pelo menos, de menina. Só uma conclusão: eu preciso de armários em vez de estantes... e da minha chave de volta.

"Uma casa repleta de livros é como um jardim repleto de flores."
Andrew Lang


→ 16:09:24 na categoria: Bem ou Mal Escritos
 



Maria Olívia.

Tenho crises de insônia, preguiça de arrumar o quarto e matéria acumulada pra estudar. Escovo os dentes e tomo banho todos os dias, já disseram que eu cheiro a baunilha. Costumava colecionar conchas, mas hoje prefiro os livros. Tenho plena consciência de que deveria assistir às notícias ao invés de desenhos animados. Mais cedo ou mais tarde, eu vou bagunçar tudo. Não se preocupe, sempre acabo dando um jeito! A lição mais importante que aprendi até hoje foi também a mais difícil de todas: não se pode confiar em ninguém.

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